Fui ourives antes de me tornar professor. Trabalhei numa oficina cujo patrão foi sobrinho sem saber, suponho, do cineasta Manoel de Oliveira. A oficina ficava do outro lado da linha férrea onde estava a minha casa, em Piedade. Eu ia almoçar em casa. Percorria, portanto, aquela rua três vezes ao dia. É a rua em que fica a Gama Filho, ESCOLA da qual mais tarde me tornei aluno e depois, professor. Vi acadêmicos de quem depois me tornei par, jogar bola de gude na calçada em frente à entrada principal da UGF.
Salvo engano, os alunos do ginásio usavam calças azuis e os alunos do científico, calças verdes.
Em casa, depois da comida feita pela minha irmã e depois de me empanturrar, para espanto de um dos comensais, sócio ourives do meu irmão, com um pão na manteiga e um copo de Ovomaltine, por recomendação de um amigo, tão rapazola quanto eu, voltava a caminho da oficina.
Algumas vezes, cruzava com uma rapariga. Via-a ao longe, não me parecia bonita, mas era uma rapariga e por ser uma rapariga muito me alegrava a proximidade. Ao perto, por acanhamento, os meus olhos se curvavam.
Passantes sempre me encantam. Ainda há pouco escrevi sobre uma passante:
Tinha ido ao mercado comprar vinho. Ao entrar na rua em que moro, vi em sentido contrário uma rapariga com os cabelos revoltos pelo vento. Parei na calçada como quem espera a passagem de um carro para atravessar a rua. Estava aqui a sua espera pra ver se você é tão bonita quanto me pareceu ao longe- você é mesmo bonita.
Ao perceber que lhe dirigia a palavra, amarrou-me a cara; mas ao ouvir o galanteio, insinuou um sorriso nos lábios. Mais adiante, ao contrário do que fazem as mulheres, voltou-se. E sorrimos.










