Para Juliana Lara
Antes de você chegar, meu mundo já estava completo.
Eu vivia meus dias sem espera:
consumo diário de acúmulos;
Eu vivia meus dias sem a ânsia do porvir:
Cultivo contínuo de reservas.
Passava, como passam as horas;
Seguia, como segue o tempo.
Antes de você chegar, eu já havia esgotado minha caixa de eventos,
Entornado minha garrafa de mistérios,
Quebrado o relicário de projetos.
(Triste carne que lera mesmo os livros que não leu)
Traçava minha história com linhas desinteressadas
Tecia meu futuro com fios puídos de um passado roto.
Antes de você chegar, adubei desgraça,
Semeei desordem e pintei com cores melancólicas
As ervas que fertilizavam os meus afetos.
Chorei lágrimas de indiferença para ternura,
Travei pacto de fidelidade com a angústia.
Antes de você chegar, cumpriu-se a guerra, guardou-se a glória.
Contou-se o cobre tanto quanto a miséria
E, no ganha e perde dessa batalha, venceu o jogo;
Pois que, pela vitória, premiou-se o jogador
Com o direito de não mais jogar.
Antes de você chegar, meu mundo já estava completo.
(a falta só se dá quando se quer o que não tem).
Antes de você chegar,
os homens passavam,
As crianças seguiam,
A roda girava como gira e sempre irá girar.
Mas...
Antes de você chegar eu não sabia,
Nem minha caixa de eventos,
Nem minha garrafa de mistérios,
Nem meu relicário de projetos
Nem mesmo os livros que não li
(e como saberíamos?)
Que era você quem eu estava a esperar.
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