Para Fábio Andrade, Ruben Arbex, Pablo, Tony e Claridade
I.
Um homem sem memória é um homem sem cidades. Tenho as minhas. Algumas especiais com todas as especiarias e espectros a que tenho direito. Os fantasmas me assombram a lembrança com os destroços edificados em cima do cemitério da minha infância. As praças não aparecem mais como nas fotografias; desço as ruas com os ramos de São Sebastião nas mãos e contemplo o encontro de Gaudí com Duchamps, sentados lado a lado nos caixotes da banca de frutas, falando coisas de um mau gosto terrível.
Não vivi na Buenos Aires imaginária de Borges. Não vivi na Dublin do dia-desabrochado de Joyce. Não tenho ladeiras como as do Cosme Velho de Machado. Meu ser, tão veredas, é um deserto sem oásis, só miragem, só.
Mas tenho os arcos azulados dividindo margens calmas e tenebrosas. Tenho as escadarias da Matriz e os pombos que repousam às cinco da tarde. Tenho os portões do Jardim das Preguiças em lento e elástico movimento; elas-preguiças, que vivem camufladas nas copas labirínticas das árvores. Tenho a imagem do mercado em movimento. Tenho nas mãos os amigos guardados e minha imaginação.
Um homem sem cidades é um homem sem amigos. Fiz os meus. Alguns especiais. São minhas especiarias. Vivo com as reminiscências de um sol que se escondia na sombra dos sorrisos suados depois de mais uma volta pelo centro. São momentos que re-visito juntando as costuras soltas do meu velho livro de páginas amarelo-ouro, ouvindo mais uma vez aquela singela canção sobre o verão, num daqueles dias em que vou me despedir te vendo passar pela janela do carro. Somos um do outro, rio-caminho, eu e as cidades, eu e meus amigos; à Barra Mansa da memória.
II.
Em tempo: sou contra os do contra, e permaneço sem ser a favor de; e há intimidades em que me pego não querendo dividir, por serem exatamente isto: intimidades. Não fui preparado para mostrar a cor da minha escova de dente. E mostrá-los (os dentes) não figura entre minhas maiores qualidades. Sempre fui de chorar. Queria que minhas intimidades contigo fossem possíveis, e se indivisíveis são, dou-as inteiras.
Não gosto do verão, é um incômodo tremendo. Estradas entram em movimento à busca do calor espraiado de corpos ardentes. Línguas se movem desconfortáveis querendo o abocanhar alheio; como diz um amigo meu: “amores bronzeados com línguas descontroladas”. Não há lembrança da maçã matutina levada ao professor. É verão, e no verão ninguém gosta mais de roupas. Os ventiladores de teto ficam valorizados. Ninguém anda com aquela coriza sentimental e os cantos dos olhos ficam brilhosinhos. O sol visita as janelas dizendo bom dia à uma da tarde. O fim do dia tem a cor bonita de nuvens suadas. O rádio ligado na varanda toca uma canção espalhando vários “eu te amo”. Não consigo, nem posso conter o sorriso.
Contando dias para ser efêmero e encontrar normalidade no exótico, enfurnado na insônia voluntária em suítes quentes, com gente misturada à gente agradecendo a chuva em dança tribal, miro a bailarina na balança com a sudorese graciosa vestida de branco para não aparecer mancha no seu tutu, e entendo que a fantasia não passa de um travesti aceito antes da quarta-feira de cinzas.
O verão é antes do outono. É o preparar das folhas caindo. Das máscaras caindo. Do mundo tombando santo. É a estação que não nasceu para acabar. É a estação da ida. E quando for outono (a estação da volta) estará na hora de eu ir. Porque eu sou assim: meia-estação. Na volta as estações estarão vazias e ninguém quererá trocar risos constrangidos de um novo olá.
III.
Mas vamos nós. Vamo-nos a contar estrelinhas como Ismália mergulhando no mar de céu. Contaremos os búzios: eu o macambúzio e você alvura cintileza calma. Confidência mínima: companhia daquelas (de você e eu) nem sei quando mais vou ter (se é que. se ou. se tive). Ah! daquele dia! tenho e guardo um porta-retrato dentro-dentro da cabeçola que caraminholando investigo desfeliz quando lembro tão longe. Tiro o miolo do pão, recheio de lembrança e mastigo, processo.
Meu amigo invisível desapareceu e as meninas não me visitam com freqüência. Eu não sou de riso-risinho; e se assim sou-me (o carinho mais desengonçado que já fiz), como? Eu subespécie me subestimo. Nunca nem fui bom disso, sabe? Sabe. Eu sei pouco gostar de mim. Faço discurso fachada e nem me convenço. Vou rezar outro terço, talvez mais umas nove novenas. Confirmo: “só acredito em um Deus que saiba dançar!”
Sou menos inteligente que penso ser. Menos bonito que minha mãe diz. Menos menos que acredito. Ora, vá lá! Foi. Faço bobas bobagens atrás de bobagens bobas e fico satisfeito com a culpa. Onde você nada, eu afogo. Estranho que estou últimos tempos. Falta é flor. Falta sou eu parar de reclamar um bocado. Falta é parar de faltar! Ê vida morte feliz!
Sou auto-objeto das minhas teses narcísicas, entretanto minha forma ainda é essa: palavra território meu: Identidade-Momento, mesmo quando a glossoteca tá de mal comigo. Admito: preciso me apaixonar, contudo entendo a pouca disposição das Graças.
IV.
Enquanto pulava as ondas com os pés cheios de pedidos, lembrava das promessas esquecidas. Longe das realizações passadas, as flores de Palma lançadas ao mar ganhavam o enlevo das barganhas com sincréticos santos. Um barco para Iemanjá depois da missa. Axé. Amém. Vi da janela pessoas em busca do tempo perdido na noite única vendo o dia nascer seguinte. Dia normal. Dia de feriado, mas normal. Prosaico, comuníssimo, enterro de ossos.
Fiz meus votos e pedidos. Agradeci na medida do necessário. E os fogos-de-artifício pipocavam no céu diante toda promissão velada. Prometi só prometer aquilo que pudesse não cumprir; e não cumprindo, que vivesse sem culpa. Beijei os meus. Lembrei dos que não estavam. Fiz balanço leve e redescobri: não constroem gangorras para adultos e passagens de ano não significam muito para mim.
Mas houve lá um ano de presentes invisíveis.
V.
Supersticioso, tirei do armário a mesma samba canção que usei em última viagem. Os cadarços antigos voltaram ao seu lugar de origem. A mochila ainda cabia nas costas. Crescido mas não precisado de tanto recheio.
Guardei comigo um manifesto invisível, escrito em um cartão postal, com caligrafia íntima. Veio numa estética em gramática de entender e conservava o mesmo estado febril de ansiedade da vez primeira.
Uma longa fila aguardava com conversas em que minha participação seria irrelevante. Avante fui percebendo olhares juvenis esperando cada suspiro e balbucio de palavras que mudariam aquelas vidas contidas e prontas. Engatinhei sob olhares esperançosos, que se tornaram radiantes com os primeiros passos; e tão logo sorriram, tanto mais rápido se entregaram à preocupação com as tomadas e interruptores, escadas e elevações na superfície. As pessoas se amontoavam entoando cantos fugazes. Penso que deviam ter me permitido o direito ao choque, ao tombo. Coisas que vim descobrir pouco depois, como no primeiro dia de aula ou o primeiro beijo, em que a vontade de sair correndo para as barras da saia da mãe logo se transformaram em sensação de abandono com aquele, ainda que dócil, acenar de cabeça. Por quê me fazer descobrir o mundo do modo mais difícil?
Dentro e um pouco, o palco: explodira aos acordes de mais uma canção sobre o verão. Vi entre todos, os brinquedos e marionetes, divertindo-se como se marcados pelos compassos. Olhos vidrados, expressão de pés no chão. Fogos de artifício, ainda, iluminavam o céu na noite vermelha.
Moça solene, assim vi posta ao lado direito das caixas de som, eu pensava: “existem lugares de oposição no peito?” Descobriu-a – sem despir-se do tom confessional – entre os olhares, que em toda parte ela estaria sob-lentes, à vista do ciúme, sempre em posse e pose. Dividiam-se para serem inteiros.
Baquetas quentes e o rufar de tambores. Cabeças tamborilaram. Era como encontrar os melhores amigos que tive; espécie de relação reconciliadora como um singelo abraço de dedos. Tinha as frustrações e importâncias desconversadas com um decoro jamais visto. A gravidade ainda me mantinha no chão, mesmo quando o grave não deixava. Vara verde inquebrantável.
Os olhos azuis sorriam. Meninas de cabelo lilás apalpavam. Assim solícito, cria-me cavalheiro de cruzada. Silêncio todo de fazer atenção fiquei, ali, parte implícita no barulho explícito... era mais que um souvenir.
Fim de espetáculo, cortinas encerradas; despedi-me, ainda crendo ter ouvido: “aguarde a próxima vez que nos vermos”.
Um homem sem memória é um homem sem cidades. Tenho as minhas. Algumas especiais com todas as especiarias e espectros a que tenho direito. Os fantasmas me assombram a lembrança com os destroços edificados em cima do cemitério da minha infância. As praças não aparecem mais como nas fotografias; desço as ruas com os ramos de São Sebastião nas mãos e contemplo o encontro de Gaudí com Duchamps, sentados lado a lado nos caixotes da banca de frutas, falando coisas de um mau gosto terrível.
Não vivi na Buenos Aires imaginária de Borges. Não vivi na Dublin do dia-desabrochado de Joyce. Não tenho ladeiras como as do Cosme Velho de Machado. Meu ser, tão veredas, é um deserto sem oásis, só miragem, só.
Mas tenho os arcos azulados dividindo margens calmas e tenebrosas. Tenho as escadarias da Matriz e os pombos que repousam às cinco da tarde. Tenho os portões do Jardim das Preguiças em lento e elástico movimento; elas-preguiças, que vivem camufladas nas copas labirínticas das árvores. Tenho a imagem do mercado em movimento. Tenho nas mãos os amigos guardados e minha imaginação.
Um homem sem cidades é um homem sem amigos. Fiz os meus. Alguns especiais. São minhas especiarias. Vivo com as reminiscências de um sol que se escondia na sombra dos sorrisos suados depois de mais uma volta pelo centro. São momentos que re-visito juntando as costuras soltas do meu velho livro de páginas amarelo-ouro, ouvindo mais uma vez aquela singela canção sobre o verão, num daqueles dias em que vou me despedir te vendo passar pela janela do carro. Somos um do outro, rio-caminho, eu e as cidades, eu e meus amigos; à Barra Mansa da memória.
II.
Em tempo: sou contra os do contra, e permaneço sem ser a favor de; e há intimidades em que me pego não querendo dividir, por serem exatamente isto: intimidades. Não fui preparado para mostrar a cor da minha escova de dente. E mostrá-los (os dentes) não figura entre minhas maiores qualidades. Sempre fui de chorar. Queria que minhas intimidades contigo fossem possíveis, e se indivisíveis são, dou-as inteiras.
Não gosto do verão, é um incômodo tremendo. Estradas entram em movimento à busca do calor espraiado de corpos ardentes. Línguas se movem desconfortáveis querendo o abocanhar alheio; como diz um amigo meu: “amores bronzeados com línguas descontroladas”. Não há lembrança da maçã matutina levada ao professor. É verão, e no verão ninguém gosta mais de roupas. Os ventiladores de teto ficam valorizados. Ninguém anda com aquela coriza sentimental e os cantos dos olhos ficam brilhosinhos. O sol visita as janelas dizendo bom dia à uma da tarde. O fim do dia tem a cor bonita de nuvens suadas. O rádio ligado na varanda toca uma canção espalhando vários “eu te amo”. Não consigo, nem posso conter o sorriso.
Contando dias para ser efêmero e encontrar normalidade no exótico, enfurnado na insônia voluntária em suítes quentes, com gente misturada à gente agradecendo a chuva em dança tribal, miro a bailarina na balança com a sudorese graciosa vestida de branco para não aparecer mancha no seu tutu, e entendo que a fantasia não passa de um travesti aceito antes da quarta-feira de cinzas.
O verão é antes do outono. É o preparar das folhas caindo. Das máscaras caindo. Do mundo tombando santo. É a estação que não nasceu para acabar. É a estação da ida. E quando for outono (a estação da volta) estará na hora de eu ir. Porque eu sou assim: meia-estação. Na volta as estações estarão vazias e ninguém quererá trocar risos constrangidos de um novo olá.
III.
Mas vamos nós. Vamo-nos a contar estrelinhas como Ismália mergulhando no mar de céu. Contaremos os búzios: eu o macambúzio e você alvura cintileza calma. Confidência mínima: companhia daquelas (de você e eu) nem sei quando mais vou ter (se é que. se ou. se tive). Ah! daquele dia! tenho e guardo um porta-retrato dentro-dentro da cabeçola que caraminholando investigo desfeliz quando lembro tão longe. Tiro o miolo do pão, recheio de lembrança e mastigo, processo.
Meu amigo invisível desapareceu e as meninas não me visitam com freqüência. Eu não sou de riso-risinho; e se assim sou-me (o carinho mais desengonçado que já fiz), como? Eu subespécie me subestimo. Nunca nem fui bom disso, sabe? Sabe. Eu sei pouco gostar de mim. Faço discurso fachada e nem me convenço. Vou rezar outro terço, talvez mais umas nove novenas. Confirmo: “só acredito em um Deus que saiba dançar!”
Sou menos inteligente que penso ser. Menos bonito que minha mãe diz. Menos menos que acredito. Ora, vá lá! Foi. Faço bobas bobagens atrás de bobagens bobas e fico satisfeito com a culpa. Onde você nada, eu afogo. Estranho que estou últimos tempos. Falta é flor. Falta sou eu parar de reclamar um bocado. Falta é parar de faltar! Ê vida morte feliz!
Sou auto-objeto das minhas teses narcísicas, entretanto minha forma ainda é essa: palavra território meu: Identidade-Momento, mesmo quando a glossoteca tá de mal comigo. Admito: preciso me apaixonar, contudo entendo a pouca disposição das Graças.
IV.
Enquanto pulava as ondas com os pés cheios de pedidos, lembrava das promessas esquecidas. Longe das realizações passadas, as flores de Palma lançadas ao mar ganhavam o enlevo das barganhas com sincréticos santos. Um barco para Iemanjá depois da missa. Axé. Amém. Vi da janela pessoas em busca do tempo perdido na noite única vendo o dia nascer seguinte. Dia normal. Dia de feriado, mas normal. Prosaico, comuníssimo, enterro de ossos.
Fiz meus votos e pedidos. Agradeci na medida do necessário. E os fogos-de-artifício pipocavam no céu diante toda promissão velada. Prometi só prometer aquilo que pudesse não cumprir; e não cumprindo, que vivesse sem culpa. Beijei os meus. Lembrei dos que não estavam. Fiz balanço leve e redescobri: não constroem gangorras para adultos e passagens de ano não significam muito para mim.
Mas houve lá um ano de presentes invisíveis.
V.
Supersticioso, tirei do armário a mesma samba canção que usei em última viagem. Os cadarços antigos voltaram ao seu lugar de origem. A mochila ainda cabia nas costas. Crescido mas não precisado de tanto recheio.
Guardei comigo um manifesto invisível, escrito em um cartão postal, com caligrafia íntima. Veio numa estética em gramática de entender e conservava o mesmo estado febril de ansiedade da vez primeira.
Uma longa fila aguardava com conversas em que minha participação seria irrelevante. Avante fui percebendo olhares juvenis esperando cada suspiro e balbucio de palavras que mudariam aquelas vidas contidas e prontas. Engatinhei sob olhares esperançosos, que se tornaram radiantes com os primeiros passos; e tão logo sorriram, tanto mais rápido se entregaram à preocupação com as tomadas e interruptores, escadas e elevações na superfície. As pessoas se amontoavam entoando cantos fugazes. Penso que deviam ter me permitido o direito ao choque, ao tombo. Coisas que vim descobrir pouco depois, como no primeiro dia de aula ou o primeiro beijo, em que a vontade de sair correndo para as barras da saia da mãe logo se transformaram em sensação de abandono com aquele, ainda que dócil, acenar de cabeça. Por quê me fazer descobrir o mundo do modo mais difícil?
Dentro e um pouco, o palco: explodira aos acordes de mais uma canção sobre o verão. Vi entre todos, os brinquedos e marionetes, divertindo-se como se marcados pelos compassos. Olhos vidrados, expressão de pés no chão. Fogos de artifício, ainda, iluminavam o céu na noite vermelha.
Moça solene, assim vi posta ao lado direito das caixas de som, eu pensava: “existem lugares de oposição no peito?” Descobriu-a – sem despir-se do tom confessional – entre os olhares, que em toda parte ela estaria sob-lentes, à vista do ciúme, sempre em posse e pose. Dividiam-se para serem inteiros.
Baquetas quentes e o rufar de tambores. Cabeças tamborilaram. Era como encontrar os melhores amigos que tive; espécie de relação reconciliadora como um singelo abraço de dedos. Tinha as frustrações e importâncias desconversadas com um decoro jamais visto. A gravidade ainda me mantinha no chão, mesmo quando o grave não deixava. Vara verde inquebrantável.
Os olhos azuis sorriam. Meninas de cabelo lilás apalpavam. Assim solícito, cria-me cavalheiro de cruzada. Silêncio todo de fazer atenção fiquei, ali, parte implícita no barulho explícito... era mais que um souvenir.
Fim de espetáculo, cortinas encerradas; despedi-me, ainda crendo ter ouvido: “aguarde a próxima vez que nos vermos”.
Adicionar comentário
| < Anterior | Próximo > |
|---|









