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Voyeuse

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Soslaio o ensaio do raiar do sol que me alumia. Invernado hiberno sem casaco; sem o calor de abraços soltos. Um amor doce-amargo colhido antes do tempo à calma cítrica de um maracujá verde. Sou do tipo braços cruzados no peito. Sou do tipo recolhido e encurvado com os olhos nos pés. Sou do tipo todo-dia. E não diferente, hoje saí. Saí às vagas num devaneio desabitado.
Ocupo a calçada e ainda assim tropeça em mim um guidão de bicicleta apressada. Travo os dentes: descondentes, tenta-se. Ele se desculpa. Eu xingo e sigo arranhado. Continuo quando surge minha vereda por volta de uma da tarde. É a barra da manhã que cai. Tropico na bainha da calça. Se os olhos dela achassem os meus...

Ela lá contempla em silêncio. Eu aqui quero ler lábios. Imagino: será que espera alguém? Se tiver alguém já quero morrer. Noto um risinho canto-de-boca. Não é para mim. Deveria? É para ele – – imagino. Deve ser. Teria chegado? Não.
Espero dois longos segundos e é o garoto da bicicleta que chega. Treme no encontro da menina radiante e espavorida. Eles desenham-se captações fotográficas com as mãos naquele enrosca-dedos. São miúdos dedos moços que trocam gracejos, apertos, sussurros.
Atemporais, descasam com o atraso – – são minutos para sempre no mundo parado com gente em volta. Estão envolvidos. É primavera de feliz primeiro amor. Ai, tanta saudade de mim...da minha taquicardia.
Olho para o outro lado da rua. Ela lá continua e Eu aqui fico. Leio os olhos escondidos sob aquelas madeixas claras como um cúmplice incógnito. É rosa-formada. Não tenho bicicleta. O tempo começa a querer bater mais depressa. Gongam os sinos.

Não. Nunca os vi. Nunca a vi. Será que me ouve enquanto suspiro? Socorra-me um esporro se eu tentar atravessar a rua. Estou perdido em brilho. Estar no lugar deles: quero. E com ela lá ir conversar baixinho. Assovio de sussurro. Vem urrando leoa! Fantasia das mãos nas minhas costas. Comicho. Colo choro. Um colo. Belo colo. Chorinho embalando a levada. Será que cheiro tem ela? Me olha, por favor me olha! Rosto de menina. Corpo de mulher. Ela odiaria ouvir isso; creio. Meus pés são inchados de tanto andar. Achei. Ainda não sabe mas achei. Chama ri. Sorvete no mormaço. Insones noites acabam. Olhou em mim. Olhou e fala. Contida grita. Grita preocupada. Sinais abertos. Corri um pouquinho para tropeçar no meio fio. Um sorriso sem graça responde com os ombros. – Pensar andando é um talento que não tenho – foi o que resmunguei do outro lado. Sim. – Quer um pouco disso comigo? – não disse, mas movi os lábios sem som.

Ela parece espectadoramente fiel do encontro deles. Estou um pouco às suas costas, chegado para a esquerda mas ainda podendo vê-los. O garoto fidedignamente respeita o espaço que ocupa e por isso (pelo gesto) sei o que são seus olhos no dela quando gesticula sem meticulosidades. Encontram-se como mão e luva; lacuna e complemento. Ah! o amor e seu festival de bonitinhos clichês. Enredo de sorriso na cara dos rabujões. Paixão O Rh Negativo...algo que soube um dia e fiz questão de esquecer: deliciosa tolice.

Apraz a sensação de sair do congelador, martirizado como um Santo Antônio de solteironas primas interioranas, que enfim conseguiram um casamento. O caso aqui é o casamento com aquele almíscar ocular que, “gelando o estômago e amornando o peito”, trouxe de volta o taquicárdico ressoar de uma patologia há muito esquecida. O susto no sinal foi só uma antevisão atrasada.
Ouvem-se as sinaleiras da escola. Ela lá. Sempre lá. Não quero que vão. O mundo e suas regras celestes: nada que anule o cálculo do acaso abolirá o jamais. Só se encontraram sós e trataram de sós viverem sóis à sóis. A garota entra. Ele se vai pedalando em tijolos dourados. Foram. Transladaram. Vão faltando ar. Penso se volto amanhã e mentiria se dissesse que é para vê-los.

Ela faz que vai. Adoro ver indo. Vou vir amanhã viver caminho perdido. Vestido de novo. Já não sei para onde indo estava. Não que importe. Vestia um justo vestido curto; palmo acima dos joelhos. Era toda graça. Garça pisando duro. Da macieira fruto. Flutuando em saltos tremi fremi sorri corri. Partiam seus olhos escondidos. Abracei imaginando e imaginando abracei demorado. Cheiro na memória: festa de piquesconde. Foi como entre andar em blocos quarteirões bairros cidades estados. Ela faz que vai.
Encorajo-me para dizer e digo:
– Tchau.
– Assim? Sem um oi ou obrigado ao menos? – ela diz.
– Só porque me salvou a vida? – respondi canhestro. E inutilmente, antes de definitivo, repeti entre os lábios, sem que um som se movesse que: “a vida que bate aqui dentro grita seu nome sem saber” como mais que um trecho duma canção chorona. Amanhã sempre é o dia do Talvez. Fomos estrangeiros. Distantes criaturas do depois. Criaturas de ida-ida.

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