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Chuvisco canivete

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Dá vontade de morder qualquer coisa crua e sentir os dentes. Sustento o sorriso na janela, onde me colo em moldura segura. Quando sozinho no escuro ligo a luz de velas e brinco de bichinhos feitos à mão na parede. Chuvisca um anúncio de chuva.
Gente há que já vista capas. Capas plásticas amarelas. Quando água cai vibra chato na cabeça. O mesmo estalo de cebolas mordidas. Par de galochas também ruída. Andar na chuva é entender o barulho das sopas.
Levo vidinha comédia romântica de orçamento barato, em que o amor é o único lugar de conforto para o ridículo; uma espécie de desejo íntimo e estúpido de correr só de cuecas pelas ruas. Lavar a alma. Nadar os pés pela tempestade. Ir como as corredeiras. Isso passa, espero.

Deu sede. Nos encontramos na cozinha. A pia parece uma triste instalação de sobras. Pilhas irregulares de um passado próximo. Os farelos acomodados à mesa ficam conformados como letras no pergaminho puído da nossa convivência. Bebo leite no bico. Começou o bate boca.
– Meu cabelo – ela gritava de um lado.
– Amanhã. – gritava do outro.
O grito sempre nasce do detalhe menor. Tenho problema com gritos – basta já o que me berra por dentro. E lá parada: olhar perdido; boca aberta – e não espera um beijo. Não pára. Pega, tomada pela sinistra, o telefone. Dei com ouvido em cima. O desconforto de favores sogros, sopra.
História Universal do Conflito Conjugado: Residentes e Suas Vontades. Aperta o coração – soa nome de novela e a discussão continua; prossegue; vai longa; prolonga... pisa pesado e bate porta. O lustre move. Mais nada move. Pára o mundo.
E volta. Pensa que cada palavra repetida é necessária. Mas precárias que são as relações – não há um risco de saliva irônica – sempre na hora incerta do ficar, manda sair. Não há como caber no sofá. São novos os novelos enrolando nos dedos; mas nós, figurantes duma sessão em reprise, repisamos os mesmos planos.
– Vai daqui! – ela disse.

Movido pelo pior da instrução natural das mães busco meia solução: flores. Flores renovam conversas, dizem. Sigo destino. Caminho à sombra de um céu aberto. Acerto as pálpebras no branco do passeio. Ando rápido encabulando o meio-fio. O olho do céu pinga. Olho no chão: pingo. Corro.
Vou a toda num corre-corre. Enquanto corro-corro o céu se ilumina. Pinga forte... corro; perto da ponte, na transição, a chuva chove... corro; o peso d’água atrapalha a vista... corro; buzinas cantam tons diversos...corro; carros passam no cruzamento logo à frente; os motoristas espremem óculos para enxergar através do pára-brisa; os sinais apagam e, apagando, ficam verdes... socorro.
Encontro o caixa eletrônico do banco. No ar, algo bem sucedido: caçar níqueis com moeda plástica: máquina: cartão: senha: dinheiro: flores: reparações: beijinhos. Mas a pressa das vestes revela bolsos nus. A vigilância eletrônica não intimida o chute. A chuva pára.
Decido: não saio de casa sem guarda-chuva. Visto minha cara de covarde com as pedras e volto. Encharcado paro com o portão trancado: “... os bolsos nus.” O interfone conversa alto: “Voltou porquê?”. Não respondo. Encosto e fico. Sem flores. Choro a notícia: não moram mais jardins na cidade; as praças são lugares de homens plantados; não há mais romances de rosas roubadas.

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