A janela também não ajuda, o quarto onde durmo não fica no alto da favela, de paisagem apenas um beco ao longe, onde eu vejo duas crianças brincando de bola de gude e uma senhora sentada na porta conversando com um homem com várias cadeiras de balanço feitas com um elástico trançado. Como eles podem ficar tão tranqüilos? Não entendo, acho que só eu fico nervoso nessas horas.
Outra explosão nos céus. O arrepio, os olhos cerrados, o peito comprimido, tudo se repete. Olho o relógio no pulso. Tenho que ir, pelo adiantado da hora não vai dar tempo para o banho. Lavo o rosto para despertar do sono. Me visto e saio de casa.
Em frente ao portão, escuto outra explosão de fogos. Tenho que decidir por qual caminho ir. Pela rua é mais demorado, mas tem por onde correr, já pelo beco é rápido, mas a fuga é mais difícil. Decido ir pela rua, afinal de contas é manhã e tem muita gente na rua. Caminho pelo lado esquerdo da rua, andando com pressa e olhando por todos os lados, principalmente pra trás. Na rua o mesmo movimento de sempre, pessoas indo para o trabalho, crianças indo para a escola, pessoas paradas conversando, pessoas paradas bebendo, pessoas paradas paradas.
Nos céus a explosão continua incessante. O relógio no pulso marca oito e meia, dá tempo. Até o bar onde trabalho em Ipanema demora no máximo quarenta minutos, isso sem engarrafamento. Morar na Rocinha é bom por isso, ônibus toda hora, é perto de tudo, perto do trabalho. Mesmo sendo uma merda de trabalho. Ganho pouco e trabalho até pouco, se comparar com outros trabalhos mais pesados.
Mas é uma merda servir pinga e cerveja o dia todo, eu que nem beber bebo, dá até nojo ver um monte de gente bebendo até cair, gastando dinheiro pra passar mal. Início do mês então! Tem gente que gasta até meio salário em cerveja. E o que tem que bêbado pedindo pinga, uma dose qualquer... dá medo. Isso em Ipanema, imagine, na Visconde de Pirajá com a Farme de Amoedo, no lado que vai pra Lagoa, não é bem esquina fica depois da esquina, na esquina mesmo tem uma loja chique.
O pior é todo dia a mesma rotina, chegar no bar, tem que ver se tem cerveja gelada, “se não tiver ao menos umas quarenta bem geladas, tem que colocar pra gelar”, essa foi a primeira e última ordem do Seu Cosme, o velho dono do lugar; depois de colocar pra gelar é atender ao balcão a minha função, faço isso das nove da manhã até as seis da tarde, são exatas nove horas por dia, eu já fiz as contas, por semana são cinqüenta e quatro horas. O cálculo do mês eu não tenho coragem de fazer.
Não recebo o dinheiro, no caixa só o Seu Cosme, fica lá em pé de frente à máquina registradora, das sete da manhã até as seis da tarde, depois vem o genro dele,o Seu Augusto. Seu? Uma merda, ele é bem mais novo que eu. Comeu a filha do Seu Cosme e teve que casar. Ela nunca apareceu aqui. Certamente tem vergonha do pai, um velho que tem os dentes amarelos de tanto fumar cigarro e as pernas escuras e inchadas de tanto ficar em pé de frente à máquina registradora. Ele pouco fala, atende quase todos os clientes calado, pergunta qual a compra erguendo a cabeça, levantando a sobrancelha e fica fazendo um bico com os lábios, como quem diz: “O que é?”.Só o vejo falando quando crianças aparecem no bar. Não crianças bem tratadas, essas não entram lá, filho de madame? Nunca vi no bar. Falo de criança pobre, que vende bala, que pede dinheiro, que mora na Cruzada, essas entram lá. Ele fica todo alegre, começa a falar e morder a língua de nervoso. E some com elas. Nessas horas deixa até a caixa na responsabilidade da Dona Lurdes, a senhora que faz a comida lá. Ela se orgulha de trabalhar lá há quinze anos e nunca ter faltado ao trabalho, sempre de segunda a sábado. Mas todos sabem que ela faltou no dia que a filha morreu, um tiro certeiro, ninguém sabe se da polícia ou de bandido. As crianças voltam com o Seu Cosme alegres com uma bolsa cheia de roupa velha e alguns brinquedos. Seu Cosme assume o caixa e fica olhando pro chão sem graça. Velho safado e seboso.
“Oh, Mer`mão! Calma aí, tá indo pra onde?”
“Trabalhar.”
“Trabalha aonde? Cadê os documentos?”
Sempre me param, meu primo Jonas disse porque eu sou escuro. Escuro nada, é mameluco, foi isso que minha professora, Dona Elza, disse quando eu estudava: “Mameluco”. Nem lembro o que é, mas não sou preto, nem escuro. Respondo olhando o coturno dele: “Ipanema”, olha meu nome no documento e apontando com o bico da arma me manda ir.
Suado e tremendo, entro no primeiro ônibus que passa, sento ao lado de uma mocinha loira. Tenho que ficar calmo, é melhor esquecer esse medo todo, esse pânico deles, não tem motivo pra eles mexerem comigo, afinal de contas sou apenas um cearense que é chamado por eles e por outros de Paraíba. Mas em Reriutaba era diferente, lá eu era o Cícero, filho do Seu Luiz e da Dona Sebastiana, irmão do Tonho da Moto e da Maria das Graças. Se, mesmo assim, alguém não soubesse quem eu era, bastava falar: Cícero... aquele que matou a mulher e os filhos quando soube que ela dormia com o Zé.
Comentários (1)
1
Qua, 08 de Julho de 2009 19:35
Alexandre Faria
Excelente personagem! e o conto de fato é mais personagem do que entrecho; este, no entanto, realça a condição de subserviência de Cícero, o que é importante para destacar a conclusão.
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