Mariinha, a velha senhora, contou-me da primeira vez que esteve com o doutor. Encontrou-o andando pelas ruas da cidade, despreocupado, assoviando uma opereta conhecida. O doutor, contou-me ela, tinha um assovio forte e sonoro. Aquele som havia chamado sua atenção. Era nova, bonita e ainda ressabiada de sua condição, por isso quis e não quis se aproximar. Sabia-o casado, cheio de afazeres e nunca havia visto o doutor na casa que começava a conquistar, ainda noviça. Como circulava pela cidade em suas tardes de folga, conhecia seus hábitos, seus costumes e os respeitava. Jamais, embora desejasse, se aproximaria de um possível cliente. Guardava-se para os futuros dias de glória e aconselhamento.
O doutor era casado com uma moça bonita, que anos, muitos anos depois ficaria conhecendo e a quem receberia com toda a pomba merecida por ambas. Em tudo eram diferentes – ela, loura; eu, morena, quase cabocla – dizia a Mariinha. Ela, senhora distinta, nos modos, no trajar, na cortesia com que tratava a todos. Eu, de cama sem mesa, com minha bicicleta a rodar pela cidade assuntando, perquirindo dos modos mais adequados para depois. Devo o que sou hoje à senhora do doutor, por quem tive a paixão mais pura possível, paixão que excede à paixão da cama, do tesão que se sente quando o homem nos possui, a paixão da amizade, que ri facilmente da vida e de suas artimanhas. A paixão, dizia-me, filosófica, está mais para o riso que para o choro.
Observava o doutor passar em seu terno de casimira inglesa, próprio para esses climas frios das montanhas, assoviando sua opereta. Como eu, era estrangeiro na cidade, como eu ainda não havia, ele dominava já a cidade com o indizível espirituoso de sua personalidade, como soube logo a seguir. Quando cruzou por mim, aspirei seu perfume, que exalava de sua barba bem escanhoada. Lembro-me, menino, até hoje deste cheiro. Após um bom dia tão melodioso quanto disfarçado, mostrou me conhecer, com certa brutalidade intencional. Acho que queria sentir até onde eu iria. Travamos nosso primeiro contato com brutalidade e desassossego.
-- Vinte – disse-me ele.
-- Oitenta – valorizei a foda.
-- Trinta.
-- Setenta.
Negociávamos. Cruzamos a rua principal nestas conversas de compra e venda. Ora ele passava por mim, ora eu por ele. Quando cumprimentava aos que passavam por nós, eu gelava por ele, mas a elegância com que levantava o chapéu ou apertava as mãos dos conhecidos fazia com que nada pudesse supor-se de nosso comércio. Andávamos. Trinta e cinco. Sessenta e cinco. Quarenta, que mais não posso tirar de meus filhinhos. Sessenta, eu durona. A rua passando em torno.
Puta nova não deve fazer isso, tem de aceitar os preços, fazer-se conhecida, enredar. Jamais abordar ou se deixar abordar em plena rua. Nosso ofício se exerce com calma, resolução e discrição. Hoje esse ensinamento está perdido, as meninas querem logo o preço alto e por isso aceitam qualquer cliente. Querem roupas caras e se esquecem que o que nos dá primazia na cama é certa inconsistência brejeira no vestir, no olhar, no falar as sacanagens. Mas eu resistia – há uma lição que se deve aprender. Com a Dorvalina foi que aprendi. Primeiro a gente dá sem muita explicação, sem cobrar. O correto vem depois. Sabe aquele senhor que tocava seu violão em todas as festas da cidade? Pois, então, assim deve ser uma puta, conhecedora da dignidade seu ofício, para que reze suas orações com sabedoria, coma a hóstia mais protetora ou para que, passados os anos, possa, como eu, ser a confessora, a conselheira da cidade. É pouco, mas resolve a vida.
Subi para o escritório do doutor, por cinqüenta.









Por enquanto deixo aqui um atalho de pesquisa para todos os contos .
Observem: a estréia foi em 30/05/2006!
Agora, esse "Hoje esse ensinamento está perdido, as meninas querem logo o preço alto e por isso aceitam qualquer cliente." É antológico.
A volta da Mariinha é saborosíssima, genial. Acho que dá título de livro inteiro, este título: A volta da Mariinha. Irretocável o texto.
Abraços, Luiz Fernando