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Bia

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Breve pausa no repouso. Sede de água. O corpo suado. Um sonho ruim. Ela: quimera bruta, divina e rubra. Vez em quando aparecia fustigando o sono. Minhas sobras em vigília. Um lance até à cozinha. Sombras. Confortei-me sob a luz da geladeira soluçando um incerto humor. Lá dentro tateei pelas prateleiras e encontrei o que beber. A ardósia esfria os pés. Os dedos esquentam as têmporas para a primeira estação. Acho salsichas afundadas na gaveta. Pego e cozo e como. Uma cadeira sozinha no canto da copa. Nela sento, erguendo o jornal de domingo passado, passeando os olhos desatentos pela tipografia. À sujas digitais fico atento. A caneca sua no chão. Coço o saco e sorrio maroto com o independente poder desse apêndice. Tomo de volta o caminho do leito, quente. Recosto a cabeça no travesseiro. Nem deito, nem sento. Desleixo. Desmexo vendo lento o ventilador no teto. Engulo os dentes ao ler no obituário um anúncio familiar: Partiu no último dia daquele esquecido dia primeiro da semana. Amou até o fim. Deixou pouco. Um pouco menos que a memória. Cuspi o choro com o busto nu na pequena janela do apartamento. Contei doze estrelas no pátio do colégio. Recrio um intervalo. E seus joelhos à mostra...

Impostores espetacularizam proezas médias do fim-de-semana, impostando-se como maritacas na hora do café. Na grita um grito de cotidiano. Os ontem-meninos agora se dedicam a responsabilidades frívolas. Consagro este momento à infância. Saudoso o tempo de dedos nas tomadas: meus primeiros não. Meus olhos encontram outras memórias: os olhos em Juliana, os olhos nas revistinhas do Renato, os olhos no sol – personagens que prometo e não cumpro. Mãos dadas acompanhadas sob um guarda-chuva. O céu liláceo num fim de tarde sua despistando o verão. Lembranças que se desmancham no asfalto quente e os pés nele correm como se estivessem descalços. Tropeço em pedras e nos sapatos. Encharco.

Segunda, torno ao laboro, jovem-senil e ex-fim-de-semana. Dissimulo obediente à forma da maioridade, numa espécie de conveniência da concessão, travestido em um exercício estético com gravata frouxa, nessa conduta comportada de descompostura. Gasto tutano agastando a idéia de pensar nas janelas do escritório me espremendo, o condicionador de ar estragando o gel nos meus cabelos mal penteados, a mesa abarrotada de entulho, clipes e papel. Vidinha cesto cheio. Calos voluntários. Escapulo e dou um pulo à Cantina. Peço capuccino e nicotina. Em uma das cadeiras próximas do balcão, me encosto e abro a Folha do Interior. Lá do fundo, o balconista me observa secando os copos. Aguardo o tempo parar, mas passa.

Os hábitos matutinos naquela vizinhança eram bem conhecidos. Contínuos atrasados e médio-executivos do Edifício Clone misturavam-se na Cantina bem freqüentada e eu era local. O especial da casa: café solúvel extraforte no leite queimadinho com canela. Não vendia nada alcoólico àquela hora da manhã, mas era sabido o tráfico de conhaque no Special. Para mim o de sempre. Eu que apesar de ser criatura de métodos, atravessava a rua correndo longe das faixas para pedestre.

Quando empurrei o primeiro gole do capuccino (que me queimou a língua) vi-a amparado pelos meus óculos escuros; ela, que mais tarde, quase intimamente, chamaria de Bia. Seios pequenos, boca-lábio-largo, olhos sem vacilo, joelhos lisos, carne limpa. Já havia lido, mas queria descobrir mais páginas. Estava sentada no banco ao lado tomando água tônica e, apesar da expressão de cansaço, parecia indiferente ao seu redor, alheada do movimento. No colo carregava alguns blocos de anotação e no balcão repousavam os seus livros.

Chega a parte tarde da manhã – hora em que saio e não volto mais ao ofício. Ócio, o fastio de fazer nada. Cansado já vinha ansiando as férias; tipo criança esperando pirulitos e balas. Eu pensava, sentenciado por outdoors e panfletos, que tudo circula em um zodíaco cujo meu signo não é classificado. Encho o peito. Empombado preparo a melopéia. O som do ambiente é de entra e sai e freadas bruscas: banda de orbe a bruxa solta e eu: urbano-paranóide.

Ela lá e eu aqui. Mexe-se bruscamente e eu me assusto. Começo a tremer com aquelas pernas sobrevistas em um soslaio. Tira os óculos depositando-os mansamente sobre o balcão. Pega a água. Vislumbro seus peitinhos no cavado da camisetinha de cor laranja – hoje não lembro o tom. Cheirava a perfume apimentado. Um aroma de duas gotas. O lado direito do seu pescoço me instigava. Ela tinha a atenção voltada para o borbulhar da garrafa inclinada. Cachoeira morrendo na taça. Feitiço que me desarruma sem destino. Ela já sabia que a olhava. Paro patético embrenhado em disfarce: mão no cabelo, cabeça de lado, cruzada de pernas – pigarreei afundando o rosto no jornal; ridiculamente cômico; ridiculamente óbvio.

– oi. – ela disse.

Estupefato, tirei os óculos que escondiam olheiras e pus a mão à frente agitando um cumprimento pasmado. Respondo com um eloqüente:

– oi!

Confesso que erigi inteiro com as mãos nas mãos. Fiquei de frente e com o plexo projetado. Debilmente perguntei-lhe o que lia.

– Assunto de miss. – ela disse.

Quase desenhei uma cobra comendo um elefante pela tromba, mas meu talento era muito pequeno.

– Você acredita em príncipes? – eu disse.

– Em quê?

– Em príncipes, ora! – emendei de pronto.

– Sim, claro... – respondeu e sorriu.

– Prazer. Eu sou o sapo – eu disse e ela gargalhou.

Chegamos ao ritual da troca de telefones. Combinamos de nos ver. Mas havia algo que minha onisciência do fracasso dizia. Não pode dar certo. Não com aquele sorriso na saída.

Nos vimos durante as luas seguintes. Fomos constantes casuais. Como casais, mas nunca juntos. Vivíamos diálogos intermináveis, reticentes. Entre os dentes uma vontade de beijá-la sem força. Parecidos similares compatíveis espelhos semelhantes: sinônimos éramos. Diferenças e raivas soavam complementares. Afinávamos os instrumentos; eu o oboé e ela o violino. Dei-lhe um quarto e mais do que havia dado a qualquer um. Redigi poemas infantis. Quando perto queria ficar. Mais que ficar fazer morada.

Ela não permitia pieguices, mas as adorava. Apresentou-me um amante. Enciumei-me comportadamente. Retesei um sorriso flácido. Ela tentava tocar-me como se dissesse: “ainda estou aqui, te procurando”. Eu dizia não, forçando um obrigado, bebericando o orvalhar dos brincos-de-princesa. Parti sozinho. Chuviscava insuportavelmente nas borboletas. Monotonia madrigal. Caminho de casa. Não queria mais seus olhos. Ela também. Tomates-cereja secos para o jantar.

Férias chegam e gasto muitos jantares solitários. Apesar de o inverno ter parecido mais agradável, era na primavera que o sensorial fazia com que as pessoas, antes cobertas, saíssem sem as chaves de casa para descobrirem-se nos motéis baratos do centro. Nem os incidentes corriqueiros, como as baratas mortas a chineladas nos cantos das paredes, intimidavam os amantes.

Morava no centro. Dormia num colchão bem no meio do corredor do apartamento – apertado. Minha geladeira quase sempre vazia, aquele ar espiritual, assim como eu: sem recheio. Eventualmente garrafas semicheias com água, vinho barato e salsichas nos fundos dos compartimentos eram encontradas lá. Residia em mim uma preguiça sem braços. Meus olhos andam piores; encharcam de saudade e secam com o frio da noite.

As secas queimavam o mato. As secas bulímicas nunca me satisfizeram. Procurei lugares em que pudesse me sentar e não comprar mais uma lembrança. As miseráveis feras esbofeteiam mais um cachorro debaixo da marquise de casa. Eu mendigo um sorriso meu. Na Caldeira do Diabo rolava um jazz aos sábados. Irmãos Marsallis, Thelonius Monk, John Coltrane e Nina Simone. A trilha sonora perfeita para o suicídio. Liguei pra uma central de anúncios. O disco gira mais uma vez em suas 33 rotações.

Domingo e saiu um sol. Resolvi ir ao parque jogar milho aos pombos. Eles fugiam. Pela primeira vez caminhei com a luz do sol que também passeava sobre o Mercado Municipal. Fiz a barba no barbeiro e junto aparei o cabelo. Comprei uma revista de entretenimento e o jornal. Os jornais só me servem como notícias de ontem. Parei para uma porrinha no boteco. Tomei uma laranjada de máquina. Joguei moedas aos mambembes. Apreciei do alto do mirante o circo de pulgas dominical. Cochichei no ouvido das moças que se sorriam com galanteios. Encarei um fliperama. Diverti-me. Entrei no cinema de reprises e vi Casablanca na sessão especial das onze da manhã. Na saída, o sol a pino me convidou para um almoço de frios. As maravilhas de ovos coloridos nas estufas dos botecos. O parque. A fonte. Os balanços.

Sentei lançando ao ar o milharal e como por telepatia, antes de caírem ao chão, eles já estavam lá, distraídos na inobservância do que havia em volta. Envolvi-me em divagações fúteis sobre como a vida podia até ser prazerosa. Aproximou-se uma mulher de vermelho com cara de ontem. Sentou-se ao meu lado. Contida, chorou a vergonha de um clichê. Não sabia confortá-la. Disse-lhe ter escolhido aquele dia para parecer vivo. E já que era o último, que fosse intenso. O melhor a oferecê-la, até então, era companhia imediata – não nos veríamos mais.

Ela foi à fonte tirar o carrego da maquiagem já borrada. A urgência de morrer fez com que vivêssemos o que nos haviam privado. Nos beijamos com intimidade. Fomos, ali, nossas luas casuais. Falamos o que não falamos a mais ninguém. A ela mostrei o quarto, a cozinha, a sala e o banheiro estreito. Uma breve ilustração das alocações da minha média existência.

Seis da tarde. Iria deixá-la, mas não sem antes vê-la partir. Adorava o mistério de vê-las partir. Pensava no que o corpo falava quando as via de costas, indo. Emprestei-lhe a navalha... mas vê-la ir, me fez lembrar do quanto era bom ficar, mais que ficar, morar. Desisti da morada. Voltei para o colchão suado de casa. Perdi-me em escolhas. O melhor agora era dormir.

Dormir o sono dos justos.

O mais justo dos sonos.
Comentários (2)
2 Qui, 30 de Julho de 2009 18:55
André Capilé
as vezes não sei se por efeito ou defeito minhas prosas ficam assim: coisa de poesia.
concordo forte quando vc diz da ação difusa, embora seja necessária pra narrativa que corre em elipses. essa coisa do sono é uma perseguição, constante... no caso, o sono justo, é também um desajuste da curteza, das efemeridades...
Bia é uma provocadora. Anda mais na safadeza do stand-by, aquele de deixar tudo/todos em um estado de espera, uma promessa na negativa constante... Penélope, uma parente arquetípica próxima, acredito.
Caio, como vários, em Caio... as vezes referências que tento escapar e me encalacro.
Apesar de obra falhada, chego a gostar do resultado... mas ainda procurando um acerto.
1 Sex, 24 de Julho de 2009 14:30
Alexandre Faria
Um conto de poeta. O que quer dizer uma coisa boa - a trama verbal elaborada, a palavra em primeiro plano - e outra nem tanto - a ação difusa no plano de fundo, o eu maior do que o mundo, e como se reconhece, alguns personagens prometidos e não cumpridos.
Noutro plano: um sujeito quase sem mundo para interagir, que vaza os afetos entre os dedos, só pode dormir o sono dos justos. Bia, ainda a musa distante, está lá, menos injusta do que deveria parecer.
Ainda outro: Caio: pessoas solitárias em apartamentos alugados nas cidades.

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