Mariinha não era Maria, era Julieta. Bicicleta, o sobrenome não era Bicicleta, mas Maria. Do pouco que sabíamos nós da vida pregressa de Mariinha, essa era, com certeza, a única. O nome Bicicleta, que lhe acompanhava o pré-nome e que fora mantido pela tradição da cidade, era grande mistério sobre o qual muito discutíamos. Mariinha era baixinha, loura, conforme relatos mais antigos, que dela guardavam lembrança. Usava cabelo curto, parecia uma atriz desconchavada de cinema e representava um papel crucial em nossas vidas. Era um ícone das noites que percorríamos a cidade em busca do que ela – em época áurea da cidade – oferecia.
O nome Bicicleta era para nós um mistério. Imaginávamos várias coisas – das mais estapafúrdias até as mais concretas e possíveis. Um dos nossos peremptoriamente afirmava – história que todos aceitavam e preferiam – que vinha o bicicleta do nome de uma cena acontecida na cidadezinha onde morava, às margens do Rio das Mortes. Mariinha era moça e teria sido ali que lhe escolheram nome e profissão. Sucedeu que, pedalando pelas margens do rio, crendo estar só, resolveu, como uma Godiva das Gerais, pedalar nua. Teria sido vista peladinha em sua bicicleta , e fora seduzida por um que passou. Gostou e resolveu começar seu noviciado a partir de então. Depois fora para a zona, de uma cidade próxima – onde exerceu seu magistério, depois seu pontificado.
Nas Gerais, nosso amigo concluía, a fama antecede o conhecimento. Mariinha era, mesmo antes de estabelecer-se como a preferida, um fenômeno que todos desejavam, pois correra de boca em boca a frase que teria dito pela ocasião do famoso passeio de bicicleta.
__ Gentes, num é que há coisa mió que zanzá daqui prá li. A temp’ra de uma vara tem mais valia que as bicicreta.
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