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Cartada

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Cartada


Mariinha estava na varanda de sua casa, quando me vê passar. Menino, chama. Senta aí. Vou te contar umas coisas das antigas. Sabe, há histórias e histórias, histórias para serem contadas, histórias para serem fantasiadas. Já vai distante o tempo, não me asseguro de contar o justo. Leve, pois, na conta das fantasias. Toda puta – como eu fui – tem mania de grandeza. Se faz por onde, fica grande; se escolhe muito, amiúda, murcha. Em minha casa todo tipo de gente freqüentava. Amigos e inimigos. Eu cuidava para que eles não se encontrassem, mas nunca sempre podia evitar de ser assim como em esse dia que te conto.


Foi um dia, era perto das eleições. Havia coronéis e coronéis e seus sequazes. Uns mediam-se pela bravura, outros pelo comedimento, outros mesmo pela covardia. Se não sabe, anota. Nisto de política nem sempre o mais audaz, o de mais coragem resolve as coisas da melhor maneira para ele e para os seus. Os que primam pela covardia são mais ladinos, agem com maior desfaçatez. São de por debaixo dos panos. Num vê?

 


Roubaram o título de uma moça. O marido enfureceu-se. Estava armado o quiprocó. Jurou esse marido que, se não houvesse título, haveria morte. Num houve. O título apareceu antes? Escuta, menino. Sou aprendiz dessas lides há muito, muito tempo. Conto devagar. Saboreio o contar, o gosto de minha ação, o gosto do acontecido. Nessa cidade, sou a memória viva, a mais viva memória, pois ouvi de uns e de outros toda a saga. Justo, em minha cama. Onde mais havera de ter sido?


Sou Mariinha, da antiga alcunha bicicleta, hoje dama de alto coturno e linguagem que só às vezes resvala – quando o sabor da história necessita. Aí desço à linguagem. Foi o doutor que me instruiu – para dama, apoquentada linguagem, para o metiê, apimentado palavrório. Principalmente na cama, mas não só. No trato dos clientes um vem cá, seu putinho, encanta e faz vibrar a corda mais recôndita da putaria. Os homens gostam de transvariar. Serem eles os putos e nós, as putas, conquistas difíceis, como se comessem virgens damas. Uns até apelam pra que a gente vista as roupas de suas madames.


Portanto, foi que correndo o beco – aquele ali – onde ficava meu império, entrou um esbaforido moço no treme que treme as pernas, no bate queixo sem medida dos assustados. Onde esconder, onde esconder. Apontei sem dizer palavra – eram desnecessárias.


Na cidade todos sabiam já do pro acontecer. Eu mesmo enviara meus recadeiros dizendo estar a casa à disposição, prum lado; e, pro outro, que viesse a casa para o trato de uns problemas. Marquei hora, mas tinha de calcular com certeza, pois um encontro seria fatal para minha manobra. Determinei diferença de meia hora, mas as pessoas quando têm pressa se adiantam e quase que o que era pra acontecer aconteceu. O tiro, entretanto, zuniu pelo beco, se perdeu no longe do matagal. Vê aqui, em meu pescoço? É ela, mandei dar busca, acharam. Suspirei aliviada, quando o moço entrou correndo. Se o outro viu, não sei, mas bastava minha palavra, que sabia das coisas mesmo antes de elas acontecerem.


Entrou. A arma ainda fumeava. Disse, vem, vamos pro quarto. Não me despi e disse que o título chegaria em antes de que ele voltasse a sua casa. Saímos do quarto, pedi uma cerveja – daquelas pretas barrigudas. Tomamos. Chamei o recadeiro. A cartada era alta. Vá e peça o título – diga que foi a Mariinha.


Deste dia em diante, passei a ser recebida para o lanche das tardes nos casarões que ficavam equidistantes uma rua apenas.


(oswaldo martins)

Comentários (2)
2 Sex, 21 de Agosto de 2009 17:12
Alexandre Faria
Gostei do conto, Oswaldo, sobretudo pelas elipses que vão deixando o leitor louco.
O trecho que me parece problemático é o em que Mariinha tem uma consciência metalinguística demasiada. Até ela reconhecer os diferentes registros, o da cama e o dos salões sobtretudo, tudo bem, mas essa consciência da estratégia narrativa não me parece condizer com a personagem sobretudo porque há o menino que lembra e traz à tona a voz do outro.
"Escuta, menino. Sou aprendiz dessas lides há muito, muito tempo. Conto devagar. Saboreio o contar, o gosto de minha ação, o gosto do acontecido."
É uma referência às elipses que mencionei acima, mas não sei se estaria na primeira pessoa da Mariinha, ou no narrar/lembrar do homemenino.
1 Sex, 07 de Agosto de 2009 12:07
André Capilé
Sei lá quem disse, possivelmente argentino, que toda história bem contada tem começos simples, mas arrebatadores. "Call me, Ishmael". E você consegue isso, aqui, com mais essa da Mariinha. O conto já começa pegando... forte. E esse trecho nasce impagável, daqueles que deixa com vontade de ter escrito: "Toda puta – como eu fui – tem mania de grandeza. Se faz por onde, fica grande; se escolhe muito, amiúda, murcha".

ferice total.

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