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Marina

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para Bárbara

 

O mar estendia-se embaciado ao longo da vista de Marina. Estava plúmbeo. Havia dias que não fazia sol. Só chuva, chuva, chuva. Chovia desde tempos imemoriais. Para Marina, uma eternidade. Gostava dos dias ensolarados, do mar manso, não desta borrasca, desta cortina de água. Contemplava, aflita, o espetáculo, pouco se enxergava, muito se adivinhava.

As águas entravam pela avenida, inundando-a. Era uma confusão de águas, o limite entre elas era nenhum. Caso quisesse pintar o mar, teria de contentar-se em pintar aquela confusão, na qual não se distinguia nem a paisagem, nem a geometria das coisas a que estava acostumada.

Olhou, então, para dentro de casa, para as paredes da casa que delimitavam o espaço. Tudo era conhecido. As cores, os pequenos detalhes do tempo que se incrustaram, como manchas, nas paredes. Os quadros que delimitavam a vista em seu sossego. Uns havia-os pintado ela, outros ganhara de alguns amigos, que, como ela, também gostavam de pintar. Eram basicamente marinhas.

A pintura sempre fora sua paixão. Através dela conseguira dominar seus instintos, entrara em confluência com o mundo, percebera a possibilidade de se justificar. Estudara, conhecera, se disciplinara. Visitando os museus, lendo os livros, redesenhando, repintando o que ia encontrando pela frente. Todo esse movimento permitiu que se aprofundasse nos dilemas da pintura e criasse outros.

Gostava dos dias ensolarados e agora isso: chuva para mais de dia! Estava perdida. Perscrutava o horizonte e não havia horizonte. Passara dias e mais dias observando o mar, escolhendo um lugar de onde o veria de forma diferente, num ângulo novo. Quando percebeu que de uma nesga da janela via de modo novo, resolvera-se. Seria dali que pintaria sua nova marinha. Num aluvião de emoções pegara o pincel, as tintas e a tela. O céu, no entanto, fora se borrando, borrando, borrando.

Caíra a chuva, forte, intensa. A paisagem sucumbiu, sumiu. Marina ficou ali, olhando, incrédula. Passaram-se dias e mais dias. A agonia de esperar pelo sol foi fazendo com que Marina entristecesse, chorasse, não se reconhecesse mais. Toda certeza se fora. Agitava-se, chegava à nesga da janela, saía, voltava, tamborilava impaciente sobre o parapeito. Sem a geometria exata, sem os sentimentos domados, planificados, tudo era nada. Nem pintura, nem vida.

A vida se esvaía lentamente, num desespero. Marina se revoltava. O cheiro da tinta mais e mais pedia, implorava que ela pegasse o pincel, pintasse. Lá fora a paisagem se desfazia inexorável. Marina, então, suspirou fundo, aspirou o cheiro que o tempo, as janelas fechadas impunham. Antes, olhou mais uma vez o que via lá fora: a água transbordava do céu, do mar na calçada. Um pensamento engraçado todo a dominou. Seria papel seu domar as águas, estender as mãos e aplacar seu espírito.

Abriu as janelas. As primeiras gotas começaram a entrar pela casa. Logo, logo o aguaceiro batia-lhe no rosto que procurava, sem a intermediação do vidro, conviver com o mundo conforme ele se mostrava. Sorriu, gostando da água em seu rosto, em seu corpo. A casa enfim fizera-se parte da paisagem. Afastou-se um pouco da janela. A tela estava pronta, preparada. Então Marina pintou. Com fúria, procurava igualar-se ao que via.

A mão segurava o pincel como se nunca o houvesse feito antes. O que fazia era diferente da geometria com que estava acostumada. A cada pincelada aprendia a domar novamente seu ofício. A chuva resplandecia no quadro, deixando entrever, na confusão dos cinzas, uma nesga de mar que não era mar, mas uma massa que se mesclava sutilmente entre as cores e ameaçava devorar quem a via. Não permita o quadro que o observador dele se afastasse, não havia um ponto de vista privilegiado. Tudo era o mesmo e diverso. Olhá-lo era mergulhar a vista e os sentidos no inominado, reinventar o mundo.

Quando Marina pousou o pincel e resguardou o quadro da chuva para salvá-lo, longe, imperceptível, uma coloração diferente começava por desenhar uma nova possibilidade para os olhos. Não era o azul, não era o rosa, que anuncia as manhãs, mas um diáfano cinza que, na confusão dos tons ameaçadores, prometia renovar a vida.

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