1. não quero te ver. fecho os olhos e vou deixando a camada de escuridão e silêncio me envolver, como a fina chuva que cai e molha pouco a pouco meu corpo vou deixando que o escuro silêncio me molhe da sua lembrança e assim me afaste de você. à noite, quando me deito sozinho e fico catando na memória os dias que passei a seu lado, um leve odor de morango invade minha casa e faz correr algumas lágrimas dos meus olhos, gota a gota bebo o suco da minha tristeza com sabor de morango, sabor de você, sabor doce e amargo de desejo e melancolia. o arroz no fogo indica a fome, a necessidade, o prazer, a degustação, o ato de saciar a fome, a gula, lembra o sexo, ingerir a comida e degluti-la, saborear bem lentamente cada grão, cada mísero grão de arroz assim como se saboreia cada ínfima parte do corpo da amada, cada resquício de você perdido em você mesma eu catei com meus lábios, fui buscar em você saciar minha fome de sexo, meu desejo de vida e achei o gozo, um lindo e eufórico gozo.
2. os movimentos acelerados da mão encerram o caminho que percorri em seu corpo, depois de passear por suas pernas-ruas, de entrar e sair de sua vagina-túnel, de subir e descer os íngremes contornos da sua bunda eu faço chover torrencialmente sobre seu corpo-cidade, irrigo você com o líquido da fertilidade (da felicidade!), te dou vida, te faço mulher nas lentes do meu desejo, filmo plano a plano do seu lindo corpo, capto seu olhar de êxtase no exato instante do gozo, como um fiel que se extasia ao contemplar a imagem sagrada você encontra seu deus interior motivada por mim, sou seu deus, sua fé, sua razão, seu desespero, sua ânsia, seu abuso, seu nascimento, sua vida, sua morte, sou tudo e nada ao mesmo tempo, me sou, te sou, me faço, te faço, somos.
3. a cada gole vou me distanciando de mim e caminhando a passos lentos rumo ao desconhecido, o cigarro arde na mão feito a saudade que sinto de você, a lua está escondida por entre nuvens de desesperança e tristeza, a mágoa pinga como a leve garoa que molha meus medos do futuro, a máquina toca uma música que não conheço mas que diz de um homem que chora por uma mulher assim como eu chorei por você um dia. penso que sou como esse homem da música, nossa diferença está em que ainda choro por você, a distância, dizem, ajuda a curar as dores do amor, a secar as lágrimas da saudade, mas a distância é fria, como pode então ela secar as lágrimas da saudade?, vai, me diz!
4. te faço um poema, outro, mais um, te conto uma estória, me faço sua história, te transformo em meu poema e vou decorando cada parte do seu corpo: seu riso grande e aberto feito uma flor prateada a brilhar no jardim das minhas lembranças, seus olhos de um verde profundo feito um mar desconhecido e por isso mesmo mais atraente para o mergulho, o contorno arredondado dos seus seios como a lua que ilumina meu desejo, a maciez do seu olhar penetrando lentamente o meu da mesma forma que te penetro lenta e profundamente procurando encontrar em você o elo mais intenso que nos una, enlaçando-nos com o nó amargo da dor do amor, exalando um aroma embriagante de dor e solidão (porque todo amor traz entranhado em si dor e solidão, o fato de amarmos outra pessoa que assim como nós um dia morrerá leva à certeza de que tanto nós como o ente amado perecerá um dia, dessa forma, por mais que amemos nosso amor trará em seu cerne essa sensação amarga de dor e solidão por sabermos que um dia um dos dois morrerá tornando finito o amor assim como nós: frágeis fantoches do triste espetáculo da vida sem final feliz.
5. a pequena morte do sono me ajuda a manter distância de você, no escuro silêncio que envolve minha sonolência vou construindo pequenos castelos de areia que o vento da consciência desperta varrerá pela manhã. na rua um vento frio despenteia meus cabelos, uma dose de conhaque e um forte trago no cigarro enchem de vida (ou algo parecido) meu peito, caminho a esmo por esquinas e ruas que não conheço, meus passos que ora pisam e deixam marcas por esse chão de barro molhado amanhã já não serão os mesmos passos, tanto eu quanto a rua (o chão) não seremos mais os mesmos, da mesma forma como hoje não somos mais os mesmos daquele dia em que nossos lábios se encontraram pela primeira vez numa rua esburaca como essa que hoje piso.
6. sentado à janela da sala fico a imaginar como seria se não tivesse acabado, construo as horas, os dias, as semanas, os meses, os anos que passaríamos juntos, os risos, as lágrimas, os beijos, as palavras que lançaríamos um ao outro no espaço/tempo de nossa relação, os ciúmes, as birras, as viagens, os sonhos a dois, os planos para um futuro que não mais existirá, os filhos que teríamos, mas naufragamos, morremos (eu morri!) na praia dos medos, das dúvidas, a maré de indagações nos encharcou, molhou todo nosso corpo, não fomos capazes de nos sentar ao sol das palavras e conversar, deixar secar os anseios, andamos rápido demais, pulamos as barreiras e tropeçamos em nós mesmos, talvez por isso agora esteja eu aqui, sentado nesse beiral de janela a fitar o horizonte que escurece lenta e maciamente, cobrindo mais um dia de noite, afogando o azul claro do dia no imenso mar de noite que se abre com suas estrelas carentes da lua como estou carente de você.
7. a fumaça se desprende do cigarro e envolve a sala, cato na memória nossa última conversa, recordo seu olhar a deslizar por mim num misto de paixão e ódio, sua voz de menina brava a gritar chamando-me de burro, de covarde, eu de olhos cravados nos chão a segurar com força as lágrimas que teimam em brotar no jardim dos meus olhos, podo-as, toda dia enquanto tomo meu banho, mas ainda assim elas insistem em voltar a nascer, crescendo na terra escura dos meus medos. bêbado fito meu pau mole a jorrar um mijo amarelo, turvo, o espelho reflete aquele que não me (re)conheço, como a fumaça as lembranças se afastam lentamente, perdendo-se no espaço vazio que é o mundo, desenho e apago seu sorriso antes que a melancolia se ponha a cantar monotonamente a fastidiosa canção da minha tristeza, me dispo, ando nu pela casa, saio do banheiro e páro frente ao espelho grande do guarda-roupa, fico por alguns segundos a olhar-me em silêncio, retorno ao banheiro, deixo o frio da água gelar as saudades que trago escondidas entre os cabelos, ponho uma roupa bonita me perfumo e saio contando sete passos até o portão, na rua deixo a noite me beijar com força a face esquerda, depois a direita, então grito bem alto, bem alto, bem alto até que os cães da vizinhança se ponham a latir que vou embora pra longe, pra bem longe, pra um lugar que não conheço, mas que sei, no fundo sei que sei, que é um lugar bonito, assim como seu sorriso nu a se escancarar feito uma janela que leva a um lugar bonito, a um lugar bonito, a um lugar bonito.
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