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Salva de tiros dentro da noite

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     da mesa observa o telefone celular tocar. silencioso, só há luzes e o nome chamando desesperado. silencioso. costuma deixar assim porque é tarde da noite e tem medo do barulho. silencioso e escuro. denso. pensa que por pouco seria possível pegar o escuro nas mãos. deixa o telefone se esgoelar mudo. chamada não atendida. sente um remorso imediato; poderia tê-lo atendido, oi, tudo bem? finge esquecer e volta a se concentrar na crônica de domingo; tem dois dias para entregá-la e não consegue sequer uma palavra acertada. poderia ter atendido o telefone. arranca uma lasca do chocolate que tem ao lado. poderia ter.

      telefone novamente. ainda silencioso, ainda é noite, tem pavor de gritos na noite; é mais noite agora, quase madrugada. não atende. não atende. vai se fuder, cara. continua escrevendo, finge que nada está acontecendo. e apagando. escrevendo e apagando. escrevendo. apagando. delet.  interfone, tem alguém aqui embaixo querendo falar com o senhor. um rapaz. não havia saída, sem fugas agora, pode mandar ele subir, por favor. quatorze andares. quatorze andares e tudo resolvido. abre a porta antes que a campainha toque.

      sentam-se na cama. mantém-se afastado, talvez pudesse escapar ileso. sente-se acuado; peixe num aquário sob o olhar guloso de um bando de crianças, querem levá-lo pra casa, pai, você compra um pra mim? oferece-lhe um naco de chocolate, não, obrigado. está completamente indefeso.

      a besta avança rápida e certeira como uma flecha, começa a tirar-lhe a roupa. sente a mão esfregando seu pau por cima da cueca, está ficando excitado; tira a roupa e ele tira a camisa tira a calça descalça as meias. sente uma mordida no pescoço que quase lhe arranca um pedaço das carnes; lambe-lhe o corpo inteiro, mamilos, coxas, virilhas, morde-lhe de leve a ponta da orelha direita; aumenta a força, quer arrancá-la; crava-lhe os caninos e o ouve gemer, não sabe se de prazer ou dor ou ambos; o segura pelos cabelos; tem força, tá doendo, caralho. empurra o pau pra dentro da boca, quer que isso acabe logo. o pau entra e sai daquela boca escura e úmida em movimentos repetidos; fricciona os dentes contra a pele do membro grosso e com gosto ruim, salgado; talvez estivesse sujo. cachorro filho da puta. agarra-lhe novamente pelos cabelos e enfia-lhe a cara no púbis; começa a chupá-lo novamente. tem vontade de morder aquele pau meio duro meio mole, nojento; decepar-lhe uma parte e deixar que o sangue exploda aos borbotões; esperaria que a vênus ressurgisse daquele sangue ruim e ferroso, daquele pênis amputado à dentadas.

      sente a mão pegajosa alisando seu pau, começa a masturbá-lo. geme. o cômodo é preenchido por aqueles gemidos, há um mar de roupas espalhadas pelo chão. as unhas descem afiadas pelas coxas, garras de tigre imobilizando a presa se debatendo em vão. as pernas ardem, devem estar cortadas, estão sangrando. quer que isso acabe o quanto antes; mete-lhe o indicador rápido como uma estocada precisa, depois é a vez da língua. está ofegante, parece que. a respiração está cada vez mais difícil; abre-lhe ao meio com os dedos como um porco no matadouro e penetra-lhe. percorre-lhe o corpo com os dedos, língua, a mão inteira. sente o corpo se esvaindo em líquidos e secreções e fluido grosso. suspira.

      levanta, veste-se com pressa. tem pressa. arde de urgência. deitado na cama, o corpo queima. não sabia ao certo o resultado daquilo tudo, não sabia nem ao menos se havia algum resultado. silencioso. madrugada adentro. treme. o telefone desligara, sem bateria. lembra um filme, o gigantesco urso devorando aquele que o protegia. olha o homem à sua frente. homem. despede-se, fecha a porta atrás de si, respira. não tem resposta. senta-se novamente, precisa escrever a maldita crônica. está nu, coberto de arranhões, hematomas, suor, marcas roxas, esperma. o urso o havia atropelado. arranhões, patadas, mordidas, marcas de dentes. começara a ser devorado.

      olha pela varanda. o carro já não estava mais lá. faz frio. havia sobrevivido, por um momento deseja um abraço quente. estava vivo. pelo menos até o final da noite.

      e de um salto, deu-se conta de que eram apenas quatorze andares, apenas quatorze andares.

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