Vou na barca. Preciso chegar antes de maio. O trajeto é curto, dura uma ressurreição. Mas nunca o caminho se dará em linha reta. Em algum recife o farol desmorona. Não ponte, não catamarã: iluminando histórias eu na barca. Preciso chegar antes de maio, quando meus pares ficarão mudos e eu sem ouvidos.
Sei que do outro lado o araribóia imponente. Mas também não me interessa a estátua, que, de tão lá, ninguém mais nota entre crianças penadas, camelôs, barracas de angu. Vou atrás de outra face, de olhos verdes talvez, judeu anônimo naquela south ferry tropical. Acredito que seu sorriso, ao me ver, poderia recompor o farol, erguer a flama da liberdade na guanabara em que minha barca divaga. Mas não sei se ele estará lá. E mesmo indo à sua procura, o medo é de encontrá-lo antes do ponto final.
(Hoje estive na hospedagem onde nos conhecemos. O abandono revisitado dos loucos que deixei para trás. Todos os olhos metralhavam meu peito com medalhas de erro ao mérito. Embora os Doutores me deixassem à vontade para sair e voltar, fui mesmo só para puxar o saldo, pagar a conta. Quase inacreditável eu ter estado ali, não fosse por tê-lo conhecido. E voltei mesmo só para procurar por ele, para lhe dizer o meu gozo. E chorei de alegria quando ela, esqueci-lhe o nome, PMD, disse ele também saiu: vende água de coco nas barcas, no shopping. Bay market ou plaza?, perguntei, mas ela não sabia.)
De novo na barca, iluminando histórias e querendo encontrá-lo com um abraço menos frio do que o das despedidas anteriores, quando só nos trocavam de unidade. Um abraço sorrilágrima de quem pode tocar o próprio sonho, de quem diz olha aqui, pega aqui, somos o que sonhamos. Talvez tudo bem rápido, porque alguns distraídos da multidão afluente do apito já estariam fazendo fila atrás de mim, sedentos de um coco express, também dispostos a arreganhar os dentes por qualquer motivo alheio à merda que exala da baía.
E ele franqueando o sorriso e eu recompondo o farol agora sem luz. Aprendendo no escuro, imaginando uma dedicatória, experimentando pontos finais. Talvez só para não nos surpreendermos com aquela incômoda sensação de eu já estive aqui. Como se fôssemos sonhos passeando de mãos dadas, inventando percursos alheios. Tudo muito rápido. Antes de maio. Quando meus pares estarão cegos e eu sem ouvidos. Mudo.
Sei que do outro lado o araribóia imponente. Mas também não me interessa a estátua, que, de tão lá, ninguém mais nota entre crianças penadas, camelôs, barracas de angu. Vou atrás de outra face, de olhos verdes talvez, judeu anônimo naquela south ferry tropical. Acredito que seu sorriso, ao me ver, poderia recompor o farol, erguer a flama da liberdade na guanabara em que minha barca divaga. Mas não sei se ele estará lá. E mesmo indo à sua procura, o medo é de encontrá-lo antes do ponto final.
(Hoje estive na hospedagem onde nos conhecemos. O abandono revisitado dos loucos que deixei para trás. Todos os olhos metralhavam meu peito com medalhas de erro ao mérito. Embora os Doutores me deixassem à vontade para sair e voltar, fui mesmo só para puxar o saldo, pagar a conta. Quase inacreditável eu ter estado ali, não fosse por tê-lo conhecido. E voltei mesmo só para procurar por ele, para lhe dizer o meu gozo. E chorei de alegria quando ela, esqueci-lhe o nome, PMD, disse ele também saiu: vende água de coco nas barcas, no shopping. Bay market ou plaza?, perguntei, mas ela não sabia.)
De novo na barca, iluminando histórias e querendo encontrá-lo com um abraço menos frio do que o das despedidas anteriores, quando só nos trocavam de unidade. Um abraço sorrilágrima de quem pode tocar o próprio sonho, de quem diz olha aqui, pega aqui, somos o que sonhamos. Talvez tudo bem rápido, porque alguns distraídos da multidão afluente do apito já estariam fazendo fila atrás de mim, sedentos de um coco express, também dispostos a arreganhar os dentes por qualquer motivo alheio à merda que exala da baía.
E ele franqueando o sorriso e eu recompondo o farol agora sem luz. Aprendendo no escuro, imaginando uma dedicatória, experimentando pontos finais. Talvez só para não nos surpreendermos com aquela incômoda sensação de eu já estive aqui. Como se fôssemos sonhos passeando de mãos dadas, inventando percursos alheios. Tudo muito rápido. Antes de maio. Quando meus pares estarão cegos e eu sem ouvidos. Mudo.
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