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Home Literaturas Apontamento “Poesia da canção x poesia da literatura”, debate que se origina em um preconceito

“Poesia da canção x poesia da literatura”, debate que se origina em um preconceito

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Às vezes o debate sobre a distinção entre letra de música e poesia fica meio cansativo.  E se resolve facilmente. Num livro que organizei (Anos 70: poesia e vida), há um texto do poeta Ronaldo Werneck que deixa tudo muito simples:  poesia  pode haver  em tudo, no cinema, na canção, no romance, atá num namoro; mas poema é o texto que tem por obrigação contruir poesia e esse texto quem faz é o poeta. Mas acho nesse caso mais importante indagarmos pelo origem da questão, pois ela é sempre feita e uma resposta definitiva nunca a resolve e as várias tentativas de responder acabam encobrindo outras questões que, se fossem formuladas, seriam muito oportunas para compreendermos alguns aspectos da cultura brasileira. É um pouco sobre isso que eu gostaria de falar, pois entendo que a proposição desse problema indica um bom caminho para compreendermos aspectos significativos da cultura brasileira. O que eu quero dizer é o seguinte, há no senso comum brasileiro, o sentimento desconfortante de encontrar maior identidade poética numa manifestação artística recente, oral e pertencente à cultura de massa (a canção), do que com outra de longa tradição, escrita e pretensamente erudita (a literatura). Esse desconforto do brasileiro (verdadeiro motivo da discussão toda) se deve a uma espécie de vergonha de gostar mais de um gênero “menor”, do que de uma arte “maior”.

Ora, nessa altura do campeonato, quem ainda pensa dessa forma é tolo. Por trás dessas idéias há, na verdade, muito preconceito. É como o preconceito linguístico. Sabemos que da mesma forma que os diferentes registros verbais (formal, coloquial, popular) não podem ser tomados como melhores ou piores, as realizações da cultura (popular, erudita, clássica, moderna, oral, escrita, etc etc) não podem ser vistas como superiores ou inferiores. Sabemos disso, mas sabemos também que essa concepção não está tão disseminada quanto deveria em nosso cotidiano. O samba, por exemplo, no início do século era coisa de malandro, de vagabundo, um gênero musical perseguido pela polícia. Há uma letra famosa, de Cartola e Carlos Cachaça, que conta essa história. Vou destacar aqui apenas o desfecho:

E muito bem representado
Por inspiração de geniais artistas
O nosso samba, humilde samba
Foi de conquistas em conquistas
Conseguiu penetrar o Municipal
Depois de atravessar todo o universo
Com a mesma roupagem que saiu daqui
Exibiu-se para a duquesa de Kent no Itamaraty

Quem poderia imaginar, hoje, um sambista como o Paulinho da Viola (que por sinal tem um samba ótimo sobre o assunto – 14 anos: Sambista não tem valor /Nesta terra de doutor ), ser preso só porque faz samba? Mas exercitemos mais a imaginação: Que tal, agora, pensar um baile funk ovacionado em pleno Teatro Municipal? Então... fica aí apenas uma dica para percebermos como os valores que estão por trás das criações simbólicas no fundo não são tomados de forma tão igualitária assim.

É por isso que por mais que tentemos dizer que a poesia da canção e a poesia da literatura sejam coisas diferentes e igualmente valiosas e importantes, a discussão não acaba, simplesmente porque as pessoas em geral não se conformam com o fato de gostarem mais da poesia da canção, mas acharem que a poesia da literatura é a que é a tal. Aí está de novo o preconceito.

Pois bem, quase sempre tentam disfarçar esse preconceito através de análises técnicas, formais, que tentam demonstrar que um autor como Chico Buarque, por exemplo, é um verdadeiro poeta. Ouçam com atenção e vocês perceberão que muitas letras do Chico Buarque são verdadeiras crônicas em versos. E assim como as boas, crônicas são bastante poéticas. Mas dizer que Chico Buarque é um poeta ou um cronista seria um erro idêntico ao de dizer que ele é um pintor ou um marceneiro. Ser poeta não é melhor do que ser compositor. São práticas distintas. Mas o preconceito nos faz acreditar que uma coisa é melhor do que a outra.

Preconceitos, todo mundo sabe, não se combatem com palavras, palestras ou debates, mas com educação e justiça. E a fonte desse preconceito que estamos abordando é mesmo a injustiça que, em nossa sociedade, torna desigual o acesso a todas as formas de expressão cultural. Para entender melhor esse aspecto, façamos uma revisão nas características da canção e da literatura apresentadas acima:


Características da:

Quanto à:

Canção

Literatura

Existência

  • Século XX

  • Desde a antiguidade clássica

Forma de expressão

  • Oral

  • Escrita

Difusão

  • Meios de comunicação de massa

  • Durante o século XX restringiu-se quase que exclusivamente ao livro como veículo.

Concordo que esse conjunto de características generaliza alguns aspectos. E também estou atento para detalhes históricos como o fato de a poesia ter surgido entre os antigos acompanhada da música, ou de que desde a antiguidade há várias formas de literatura oral, ou de que há vários gêneros literários de massa (por exemplo, literatura policial). Mas também sei que muitos preconceitos sustentam-se em generalizações e leituras apressadas. Por isso, creio que seja suficiente aceitarmos esse quadro comparativo para perceber que, numa sociedade de raízes fortemente escravagistas e de cidadãos parcamente alfabetizados, é apenas para atender aos interesses daqueles que estão no poder que se difunde a falácia segundo a qual a literatura seria mais nobre do que a canção. Por outro lado, não se pode acreditar numa contra-ideologia simplificadora, que vai simplesmente valorizar a cultura popular em detrimento da tradição escolarizada. Está por trás dessa simplificação o uso do termo “escola” atribuído às agremiações de sambistas, bem como a idéia recorrente de existir uma “nobreza” no samba. Para que o preconceito seja, de fato, superado, apenas o acesso justo e democrático a TODAS as formas de expressão cultural, é que poderá fazer com que o brasileiro admita, sem vergonha, sua identidade.

Finalmente, e já que fui convidado como escritor, e não como professor, gostaria de terminar lendo uma página do meu romance AnaCrônicas, um romance que foi escrito com base em canções, que é todo pontuado por canções. Mas eu quero ler uma parte que tem um poema, na qual eu brinco justamente com essa questão de fazer poesia.

Ler AnaCrônicas, p. 47

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