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A cria dos outros

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"Hoje um menino de 13 anos foi morto pelo caveirão." Recebo a notícia na mesa do café da manhã. Notícias dessa ordem sempre me deixaram comovido, estarrecido ou revoltado. Mas parecem, no Rio de Janeiro, cada vez mais tão corriqueiras, que sequer causam um levantar de sobrancelhas do cidadão. A prática política dos últimos governos tem sido a de justificar a ação violenta do estado, como pretensa forma de combate ao narcotráfico. Esta prática tem duas conseqüências que são desastrosas para a construção de um espaço público que possa ser compartilhado por todos da forma mais justa possível (o que só nos pode levar a concluir que não é isso o que se deseja). A primeira conseqüência é a generalização da violência; ninguém precisa ser um Gandhi para saber que a ação violenta e opressiva do poder instituído dissemina a insegurança pública. A segunda é a instituição de uma política de segurança preconceituosa, discriminatória e, quiçá, racista. Este contexto, que pode não estar explícito para todos os leitores de língua portuguesa, é uma evidência gritante para os que sabem o que é "caveirão". Aos leitores que não perceberam a evidência de que a política de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro é, além de fonte geradora de violência urbana, preconceituosa e discriminatória (deixemos o "quiçá, racista" para outro debate), a esses leitores sugiro que procurem saber o que é, como e onde atua o "caveirão". Recuso-me, por princípios, a descrever aparatos bélicos, mas adianto: não recorram a dicionários. Duas lembranças, uma muito antiga e outra bem recente, se cruzam com a notícia que recebi e socorrem esta crônica, esta tentativa de permanecer indignado ante o que querem tornar corriqueiro. 
 
A primeira, vem de alguma data de meados dos anos 80, um show da Ângela Ro-rô que assisti no Projeto Seis e Meia do teatro João Caetano. Em um texto introdutório para a canção "Mônica", a cantora, depois de destilar uma análise ironicamente preconceituosa da vocação que os pobres demonstram para procriar e da maneira como as classes favorecidas se dedicam a criar sua família, terminava expressando a seguinte idéia: "A diferença é que eles curram e matam a própria cria, e nós curramos e matamos a cria dos outros." A banda então atacava e Ro-rô cantava: "menina não vai se distrair / e acreditar que o mundo vive / na inocência desse seu olhar...". Mônica foi, nos anos 80 uma canção emblemática, que procurava denunciar os diversos casos de violência contra a mulher, sem deixar de ser uma crítica irônica aos valores da tradição que sustentam a família brasileira ("podia estar quieta e ser feliz / calada, acuada, castrada). Apesar de motivada pelo caso recente, a compositora não deixava de citar outros nomes:
 
Aída Curi era rock, Aracelli balão mágico
Cláudia Lessin a geração de Reich,
O que eu não vou classificar
É a dor do pai, a dor da mãe
Que ela poderia ser, mas não vai
 
Outros nomes, ainda, poderiam ser acrescentados à lista desde então e o leitor que não houver passado batido pelos últimos 20 anos não terá dificuldade em enumerá-los. Mas ainda não é desses casos que quero tratar.
 
Outra canção, também dos anos 80, de Chico Buarque, referia o assassinato de uma menina no morro do Tuiuti, vítima da onda de violência que, talvez, naquele momento, começasse sua escalada. Eis a segunda parte da letra de Chico:
 
Uma menina igual a mil
Que não está nem aí
Tivesse a vida pra escolher
E era talvez ser distraída
O que ela mais queria ser
Ah, se eu pudesse não cantar
Esta absurda melodia
Pra uma criança assim caída
Uma menina do Brasil
Que não está nem aí
Uma menina igual a mil
Do Morro do Tuiuti
 
A perspectiva da infância interrompida está presente nas duas letras. Uma criança morta, seja de fome, de bala ou vício é sempre fato comovente e indício da crise brasileira. Ontologicamente não há como distinguir mortes. Socialmente talvez haja, mas também não é nesta distinção que quero embasar meus argumentos, embora já houvesse, aí, matéria mais do que suficiente para compreendermos o preconceito e a discriminação. 
 
O que coloco em questão através das duas letras é o nome. Se algum mórbido colunista resolvesse fazer um who's who entre os jovens e crianças assassinados do Brasil, lembraria, com toda certeza os mesmos nomes de que o leitor se lembrou parágrafos acima. Mas qual era o nome de uma menina igual a mil? Quais eram os nomes dos meninos da Candelária? Qual era o nome do menino que caveirão matou hoje de madrugada?
 
A existência e a lembrança desses nomes está diretamente relacionada ao impacto que o crime exerce sobre a sociedade através, é claro, dos meios de comunicação de massa. O crime, então, deixa de ser apenas a ação violenta do estado, através de sua polícia, mas passa a ser, também, o silêncio da sociedade, a maneira hipócrita com que nos remexemos desconfortáveis nas poltronas, quando não queremos tocar num assunto.
 
A segunda das lembranças a que me referia acima foram as fotos da exposição "Favela", de Pedro Lobo e Severino Silva. 
 
Favela
 
Os dois fragmentos de fotos do convite acima revelam as óticas dos dois expositores.  O primeiro experimentou flagrar a arquitetura da sobrevivência de improviso de favelas cariocas. As fotos do segundo captaram diversos ângulos da violência, dentre os quais não faltaram instantâneos da convivência ambígua entre as crianças da favela e as armas do estado. Da mesma forma que nas canções, estas fotos denunciam o silêncio da sociedade que parece querer, por meio do braço armado do Estado, oficializar a matança e a curra da cria dos outros.
 
 

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