TextoTerritório

  • Increase font size
  • Default font size
  • Decrease font size
Home Literaturas Crônica Que voltem os festivais Daniela aragão

Que voltem os festivais Daniela aragão

E-mail Imprimir PDF
Avaliação do Usuário: / 0
PiorMelhor 
    Há alguns anos fui com um amigo à casa do crítico e produtor musical Zuza Homem de Mello, em São Paulo. Objetivo: uma entrevista sobre a cantora Elis Regina. Muito gentil, Zuza nos recebeu com um sorriso nos lábios e um livro grosso nas mãos, escrito por ele: era a obra mais completa com relação à história dos grandes festivais da MPB.

     Elis era a pauta, mas acabamos direcionando nosso bate-papo para o tema Festival. Num misto de emoção, saudosismo e bom-humor, Zuza nos confidenciava histórias fantásticas dos bastidores da canção, que não constavam de seu livro.

     Encantados por sua fala, aproximávamos bastante o gravador para não perdermos nem um suspiro. Apesar do vigor com que ele nos passava informações preciosas, sentimos que o assunto Festival estava definitivamente enterrado na memória e no livro.

     A lembrança daquele dia retorna justamente agora, enquanto confiro com os demais jurados as notas decisivas dos vencedores do Primeiro Festival SD-NET, de Santos Dumont.

     Músicos de todas as partes e de vários gêneros disputaram os prêmios de melhor música, melhor letra, melhor arranjo e melhor intérprete. Muitos privilegiaram uma levada pop-rock, enquanto um número pequeno demonstrou a força do legado da boa MPB.

     O Festival iniciou-se numa sexta-feira agora de outubro e terminou no domingo, com a apresentação dos finalistas e um show de encerramento com o baixista Dudu Lima. O experiente maestro Sylvio Gomes era uma espécie de coordenador de nossa pequena equipe. Eu colocava a minha nota à caneta, de maneira bem clarinha, e depois espiava a dele. Estávamos sempre em sintonia.

     Um dos músicos que mais me impressionou foi o baiano Adriano Santhana. Concorrendo com duas composições próprias, levou o prêmio de melhor intérprete e de melhor canção por "Pedaços de mim". Adriano me tocou desde o primeiro acorde, um violão preciso aliado a uma voz de timbre muito bonito. O cantor/compositor e instrumentista traz em sua interpretação de feitio "cool" a influência dos grandes da MPB como Caetano Veloso, Dorival Caymmi e João Gilberto. Avesso aos excessos, Adriano é o anti-expressionista por excelência.

     "Fazenda Madalena", de Roberto Ázis foi eleita a melhor letra e música do Festival. Embora o compositor seja de Três Rios, a canção é revestida de um certo clima de mineiridade (não fora Três Rios na fronteira de Minas) que me remete ao mineiríssimo Fernando Brant: "Meu paraíso não tem a modernidade/Tem toda a simplicidade da luz de um lampião/ Carro de boi rangendo à beira da estrada/O canto da passarada, o pio da juriti/No fim de tarde os lampiões estão brilhando/Sapos e grilos cantando, meu paraíso é aqui/Café passado quente em coador de pano/ E do forno vai saindo uma broa de fubá/fogão de lenha, frango em panela de barro,/Gula, aqui não é pecado este é o meu lugar." A atmosfera tranqüila do espaço interiorano também é construída no arranjo desta canção, que leva dois violões no estilo regional. Roberto Ázis é presença constante nos festivais de todos os cantos do país e sua maturidade advém do talento e da experiência.

     Vale lembrar outro ótimo momento do festival, quando o, com licença da palavra, "sandumonense" Martinho Caetano subiu ao palco com seus filhos para apresentar a canção "Amante Sideral", de sua própria autoria. A música, que levou os prêmios de melhor arranjo e de melhor canção de Santos Dumont, é um blue "alto astral" que fala sobre uma paixão nos tempos da internet: "Eu já consigo copiar/Ver tua imagem em terceira dimensão/Já sou capaz de navegar na escuridão/On-line sinto teu gemido/E um hacker prisioneiro virtual/E as bandeirinhas coloridas San Juan/São Hds dançando enfim da Ham pro Hom/Plugar em teus slots/Beijar teu monitor".

     Destaco essas canções e esses artistas pelo impacto que me causaram. No entanto, havia outros também muito talentosos, que ficaram de fora da premiação por absoluta falta de espaço. Como falou com muita propriedade o cantor e compositor Tânio César, de BH: "Os festivais são portas abertas para nós músicos independentes mostrarmos o nosso trabalho. Nós estamos fora da mídia e temos poucas oportunidades."

     Tânio está certíssimo. A grande era dos festivais dos tempos do Zuza, de fato, é coisa do passado. Mas nos tempos atuais em que os artistas se vêem massacrados pelas imposições da mídia, os pequenos festivais consistem em grandes portas. Que voltem então os festivais!

Adicionar comentário

Seu apelido/nome:
seu email:
Comentário (você pode usar tags HTML aqui):
 

Show Other Articles Of This Author

Banner