Dentro desse quadro, métodos arcaicos continuam sendo colocados em prática sem se perceber seus efeitos. E essas práticas estão tão inseridas dentro da cultura escolar que professores recém-formados reproduzem discursos de décadas atrás. A escola ainda vive no período medieval.
Dentro dessa mentalidade, a repetência continua sendo encarada como uma forma de punição ao considerado ?mau aluno?. Uma vingança do professor ao aluno que não apresentou um comportamento adequado ou esperado. A escola não vê que a reprovação não é somente um problema do estudante: de alguma forma não estamos conseguindo inserir aquele aluno no mundo da escola, criamos muralhas imensas e difíceis de serem transpostas pelos alunos; não conseguimos trabalhar o prazer de aprender algo novo, de ler um livro, de descobrir na internet algo interessante e que tenha a ver com a nossa vida cotidiana. Assim, são considerados como bons alunos aqueles que copiam tudo, mesmo sem saber o sentido do que está sendo copiado; decoram, mesmo sem entender o que está sendo decorado; reprimem suas curiosidades e aceitam a imposição do que está sendo ensinado, mesmo que isso não faça sentido algum para a sua vida.
Não estamos defendendo a aprovação automática, essa não é a solução. Mas temos que ter cuidados com a cultura da reprovação que ainda é muito presente.
As escolas públicas, de uma forma geral, apresentam uma distorção entre série/idade muito grande. E o problema mais grave, observado nos conselhos de classe, reside aí. Ainda não se discutem os efeitos dessa distorção série/idade, não se percebe que a desmotivação do aluno que com 14 anos cursa a 5ª série pode ser potencializado pelo fato de todos perceberem claramente, em relação ao seu tamanho, que ele foi retido diversas vezes, pelo fato de ele conviver com alunos que estão em outro estagio de desenvolvimento humano, mais imaturos. Esse aluno é estigmatizado pelos professores, pelos alunos da sua sala e muitas vezes pela própria família, classificado como ?desinteressado?, sem se discutir os motivos desse desinteresse, sem se traçar estratégia para que essa criança seja incluída nesse espaço. E mais uma vez, como forma de punição aos seus questionamentos, ao seu não enquadramento naquele modelo, esse aluno é retido. Fora da escola: trabalho de flanelinha, lan house, o pai que chega a casa alcoolizado; dentro da escola: a marca das diversas repetências estampada na convivência com crianças bem mais novas. Que atração a escola pode oferecer? Por que ir à escola e agir da maneiras esperada/imposta?
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