Não sei se tive medo - dos cães, da noite, dos corpos - ou se apenas queria que me vissem. De alguma forma, pensava confuso que jogando luz sobre a cozinha outra vez nos olharíamos nos olhos. Parecia importante saber se a mão no meu cabelo pertencia a Pedro ou a Virgínia, se a boca contra a minha cara era de Júlio ou de Martha e assim, pensei, também os outros. Para que soubéssemos, acho, da exata medida e intenção de cada toque em cada membro, foi que acendi a luz. Assim como um filme que de repente pára, todos me olharam imobilizados no que faziam. Eu era o centro móvel do que começaria a acontecer no próximo momento.
(Abreu, Caio Fernando. Triângulo das águas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983, p. 37)
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