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A poesia pode (ou não pode) ser uma ação entre amigos?

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Para Giovanna Dealtry

Diferentemente das gerações modernistas, cujos poetas também foram médicos, advogados, farmacêuticos, delegados e vagabundos, a maioria dos poetas da minha geração ingressou nas Faculdades de Letras. Isso, além de fazê-los professores e críticos, traria significativas consequências para a produção e a circulação da poesia contemporânea.

Uma delas é a figura do poeta-crítico (muitas vezes do crítico-poeta). Claro que a perspectiva crítica assumida pela poesia é atinente à própria modernidade e seria impensável e infrutífero recusar essa dimensão como uma das mais promissoras da poesia. Outra coisa é deixar que o lado crítico (literário, entenda-se) institua e defina a própria fatura do poema como se houvesse nesse gesto metalinguístico um a priori hermenêutico que legitimasse o poeta como próprio leitor de seus poemas. A poesia perdeu, com isso, sociabilidade, o que indica que se tornou um instrumento de troca social em baixa, sem a garantia de fruição ou de um tipo de experiência, de contato com o discurso ficcional, a experiência estética. Mas isso não se perdeu na sociedade. Outros veículos, sejam auditivos ou audiovisuais, como a canção, o cinema, a ficção televisiva, ou mesmo a leitura de prosa de ficção, estariam sendo suficientes para garantir essa troca na sociedade, e a poesia, menina chorona nessa estrada de tráfego intenso, fica sentada à beira de um caminho que não tem mais fim. E passa então a ser fruída e usufruída, entre pares, como se fosse uma produção acadêmica, à margem da sociedade (como é, via de regra, a maioria das produções acadêmicas). E à margem da própria academia, pois qual o valor, para os mecanismos de controle e avaliação produtivista, como o Lattes, por exemplo, de um livro de poesia escrito por um professor, crítico e pesquisador de literatura? Que valor as forças políticas do saber acadêmico são capazes de atribuir à pesquisa estética?

Esse esvaziamento da cena pública em que pudesse circular a poesia fez com que parte significativa da poesia contemporânea tenha se tornado uma ação entre amigos sem (quase) nenhum viés crítico externo à produção, circulação, apreciação do poema. O poeta contemporâneo – como o poeta das vanguardas – escreve, edita, publica, traduz e critica a si mesmo e a seus pares formando um cânone do qual ele mesmo participa, admite ou rejeita outras, faz circular suas vozes e refrata quaisquer possibilidades de dissonância.

Então, você, poeta, já foi avaliado por um desconhecido? Ou este desconhecido usou sua poesia como escada, como elemento pró ou contra o próprio cânone que ele – e seus outros amigos – estão em vias de formar na contemporaneidade? Quem lê sua poesia, poeta? Você se entristece ou se alegra de ser lido ex-clu-si-va-men-te por pares, pares dos pares, aqui e além-mar? Você se entristece ou se alegra por ser tão traduzido – em inglês, mandarim, romeno – por outros poetas-críticos-tradutores os quais você também irá traduzir para esta língua rara, o português?  Você se entristece ou se alegra pelas indicações a prêmios, pelos convites a feiras feitas ex-clu-si-va-ment-te por seus pares e críticos com os quais você toma café?  A culpa não é sua, poeta. É desse mundo minúsculo. Mas a culpa também é sua, poeta, porque não é mais possível essa retroalimentação. Essa falsa cadeia. Esse falso diálogo. Esse cânone que exclui qualquer leitor não hiper-qualificado e aprovado por outros poetas-críticos, ou críticos-poetas.

Que esforços podemos fazer para que a poesia ocupe as ruas?

Isso é uma necessidade, não para benesse dos poetas, mas para tirar da crise o próprio valor social da poesia. Hoje fica evidente que o lugar da literatura (da arte em geral) deixa de ser compreendido com objetividade, no momento em que as brilhantes mentes políticas do "ocidente" põem em pauta a dúvida entre ensinar o criacionismo ou o evolucionismo nas escolas. Na balança entre a ciência e a religião, rechaçam, definitivamente, o tipo de conhecimento humano que só a poesia (a arte) poderá proporcionar às consciências.

Poeta (no melhor e mais amplo sentido do termo) junte-se a nós. TextoTerritório. Lugar para criação de textos. Textos para criação de lugares.

 

(Este texto, ligeiramente modificado, é parte do artigo "A procura da materialidade da poesia", que sairá no livro 4xcríticadepoetax4, organizado por Wellington Ferreira Lima, em breve.

Voltemos aos golpes

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É bom que voltemos aos golpes, in memoriam, nos marços ordinários e sempre quando necessário, como se volta ao lugar difícil das grandes dores da infância. Daquelas que pensamos ter esquecido, mas que preparam, em silêncio, erupções impensadas. É bom que o golpe fique na infância, mas que seja fonte perene para a sede que os adultos têm de violência, de sangue, de sofrimento; alheios. E mesmo que tudo vire espetáculo, globo repórter esso, pelo menos sirva como dedo inquieto na casca da ferida.

Depois de golpes nada nasce, mas, porque tenhamos nascido de um golpe (como todos os golpes, trapaça e escambo), preferimos pensar que o nascimento foi tardio, catequese indireta numa tímida manjedoura democrática; não. Nascemos de um golpe; voltaremos a ele sempre. Que seja in memoriam, que seja sem esperança, que seja porque não estamos mais lá, para que saibamos que o pai-ditador morreu.

Aí, então, pai morto, é hora de enfrentar as diferenças que, porque nossas, são tuas; compreender as misérias que, de tão tuas, são nossas. E rezaremos, de mãos dadas, em memória desse maldito (e cinquentenário) 31 de março, a oração que um velho e sifilítico poeta nos ensina, hipócrita leitor, semelhante, irmão.

Alexandre Faria e Oswaldo Martins
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