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Amigos,

Moramos em Cascadura, subúrbio do Rio de Janeiro, desde 1987, quando retornamos do exílio em Moçambique - país que passava por um processo de guerra civil. Atualmente, muitas situações que temos vivido no subúrbio nos remetem a insegurança que passamos quando vivemos a guerra no outro país. Há dois meses e meio estamos escutando tiroteios intensos de noite e de dia, com rajadas de metralhadora constantes. Não sabemos se são do Juramento - que está sendo noticiado há três semanas, do Morro do Urubu ou no Morro do 18. No mês passado, voltando do trabalho,um carro foi roubado na minha frente e os assaltantes estavam fortemente armados. Ontem, voltando do trabalho por volta das 19 horas, na Rua 24 de maio no Méier, vivi pela primeira vez um arrastão.

 Segundo os carros que estavam mais na frente,um bando em três carros, armados com fuzis, estavam assaltando todo mundo. Não chegeuei a ver o bando, mas vendo todo mundo correr, corri também. As pessoas estavam desesperadas e corriam pela rua. Isso foi na altura da universidade Estácio de Sá, onde tem uma saída para o Lins. Sou professora e acredito que a educação pode contribuir significamente para acabar com a desigualdade social, mas as escolas estaduais se encontram em um estado deplorável, professores desestimulados pelos baixíssimos salários, sem tempo de planejamento pois é preciso dar aula nos três turnos para sobreviver dignamente... Dos amigos que moram em comunidades carentes, escutamos com frequência histórias de despespeito aos direitos por parte do próprio Estado. Eu sou de uma família que teve uma trajetória política de luta contra a desigualdade social no país, de esperança em construir um outro Brasil, estou bastante angustiada com tudo que está acontecendo. Enfim, amigos, precisamos fazer alguma coisa!!!

 

Andreia Prestes e família

Comentários (3)
3 Seg, 05 de Outubro de 2009 10:24
Alexandre Faria
Pode ser Andreia. Não esqueço a "limpeza" que fizeram na cidade em 1992, por conta da ECO. Mas, pessoalmente, acho demais associar ao processo decisório da Olimpíada isoladamente. Percebo tudo no conjunto de um projeto que tem a ver com o PAC (e aí entram as campanhas de sediar a Copa e os Jogos) e que, apesar do viés populista, está forçando mudanças nas relações sociais na cidade, sobretudo porque recoloca (muito tenuamente e longe do necessário) o valor da coisa pública. Nesse ponto é que instituições e cabeças mais refratárias a mudanças (e onde a indistinção entre o público e o privado está mais arraigada) como as do setor de segurança pública reagem mal.
2 Dom, 04 de Outubro de 2009 16:05
Andreia
Alexandre,
fico pensando se com os jogos olímpicos no Rio a tendência não será novamente uma política de segurança equivocada, pra gringo ver. Acho que essa onda recente de violência vivenciada no subúrbio do Rio pode ter a ver com o período pré-decisão da cidade que sediaria os jogos de 2016... E talvez essa onda seja só o início...
1 Dom, 27 de Setembro de 2009 03:25
Alexandre Faria
Andreia,

Entendo perfeitamente (e não apenas na teoria) sua angústia. Acho que o que você faz já é um passo bastante significativo, de externar a nossa aflição e propor a discussão. Precisamos, sim, fazer alguma coisa, e a primeira delas talvez seja isso mesmo, multiplicar essa inquietação a partir de um ponto de vista mais verdadeiro e engajado, fazendo contraponto ao sensacionalismo bangue-bangue que a mídia insiste em nos impingir.

Vamos tornar seu texto público no TetoTerritório, e tentarmos, a partir daí, fomentar a discussão. O que nem sempre acontece, mas não nos custa tentar.

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