O pancadão lá na quadra e ninguém dorme em paz. Tá foda. De segunda a quinta, caveirão, helicóptero, até granada explodindo. Fim-de-semana, a favela enche de playboy, de patricinha. A boca dá o arrego e os home não perturba. Só a merda desse baile funk.
Nasci no morro e já tenho 28 anos de favela, mas se tem uma coisa que nunca suportei foi esse populismo folclórico de achar que tudo que é morro dá samba. Aqui nunca teve samba que prestasse, a antiga escola, que nunca passou do terceiro grupo, hoje tem menos componentes que um bloco de sujos, e a quadra fica lá ‑ baile funk de sexta a domingo. vagabundo cheira, bebe, fuma, fica virado direto e quem trabalha é que não tem razão.
É claro que a maioria dos moradores, que labuta de segunda a sexta, não está nem aí. Muitos até vão pra quadra, curtir o baile; outros ficam enchendo a cara numa birosca qualquer. Favela é assim, cada beco uma birosca, pro cara tomar umas, meter o pau no governo, falar de futebol, ouvir pagode do SPC, balada do Bartô Galeno e sair de lá conformado, disposto a ser explorado por mais uma semana. Mas pra mim não dá. Não posso entrar nessa. Sou escritor.
Nasci no morro e já tenho 28 anos de favela, mas se tem uma coisa que nunca suportei foi esse populismo folclórico de achar que tudo que é morro dá samba. Aqui nunca teve samba que prestasse, a antiga escola, que nunca passou do terceiro grupo, hoje tem menos componentes que um bloco de sujos, e a quadra fica lá ‑ baile funk de sexta a domingo. vagabundo cheira, bebe, fuma, fica virado direto e quem trabalha é que não tem razão.
É claro que a maioria dos moradores, que labuta de segunda a sexta, não está nem aí. Muitos até vão pra quadra, curtir o baile; outros ficam enchendo a cara numa birosca qualquer. Favela é assim, cada beco uma birosca, pro cara tomar umas, meter o pau no governo, falar de futebol, ouvir pagode do SPC, balada do Bartô Galeno e sair de lá conformado, disposto a ser explorado por mais uma semana. Mas pra mim não dá. Não posso entrar nessa. Sou escritor.
Quer dizer, se eu fosse só escritor e vivesse do que escrevo, tudo bem. Mas para sobreviver também sou explorado em dois colégios particulares que pagam abaixo do piso. E disso meus patrões se orgulham: Eu pago pouco, mas pago em dia! é o principal argumento de um deles. Minha mãe, que morreu há pouco mas que teve tempo de ver o filho formado e empregado, lamentava, quando me via um fim-de-semana inteiro, às voltas com redações para corrigir, provas para elaborar, textos para escrever, livros para ler. Ah, meu filho, estudou tanto para trabalhar mais ainda! Pela lógica de minha mãe o trabalho era indigno dos homens estudados e não havia como diferenciá-lo de exploração. Ser trabalhador era ser explorado e ponto final. Algumas vezes tentei mostrar a ela que a exploração tem a ver com o capital e não com o trabalho, mas desisti. A velha era cabeça dura e dona sempre da última palavra. Então, quando ela começava a lamentar ao ver seu filhinho único se matando de trabalhar, Vai melhorar, mãe, eu dizia, e voltava a enfiar a cara no livro que estivesse lendo, quase sempre um Machado de Assis.
Machado, li e releio. Mas leio de tudo, clássicos principalmente, o primeiro clássico que li foi Virgílio (me atraiu um autor que tinha meu nome), depois fui a Homero, Dante, Camões, Cervantes. Shakespeare, nunca gostei muito. Apesar de toda badalação que fazem com o nome dele, acho suas histórias muito apelativas. É só comparar o exagero que transborda num Hamlet, por exemplo, com a concisão irônica de um Dom Casmurro, para entender o que digo. Machado não citou a peça do bardo inglês; recriou-a. E olha que se tem uma coisa de que entendo é literatura. E, modéstia à parte, sei escrever. Sei o que é estilo.
Namorei durante anos os textos do Bruxo. Custou-me chegar a uma escrita machadiana, a pureza vernácula e a leveza sintática, mas cheguei. Escrevi dois romances. Ainda estão aqui na gaveta. Todos os editores recusaram. Um deles, que acabou virando meu atual editor, aconselhou: é evidente que você tem talento, mas por que não tenta uma linguagem mais direta, falando da realidade, do dia-a-dia. Aproveita sua experiência na periferia, essas coisas estão vendendo e você tem um prato cheio. Custei a admitir essa prosa mais próxima do coloquial que namora com o baixo calão, mas acabei cedendo. E foi um pouco inspirado pelo batidão do funk, pelos tiroteios de polícia e bandido e pelos bebuns da birosca que, em menos de 60 noites mal dormidas, escrevi Tráfico, um thriller policial cheio de sexo, drogas e palavrões, sobre o submundo do crime e o cotidiano da favela. É um best-seller certo, disse meu editor e quis me pagar um adiantamento. Mas agora, depois do que me aconteceu ontem, acho que vou ter que procurar um advogado e impedir o lançamento do livro, marcado para daqui a 15 dias.
Não acredito que os fatos que me levam a desistir do sucesso certo devam ser escritos, mas preciso botar as idéias no lugar e, para mim, nada melhor do que a escrita. Foi por isso até, pela necessidade perpétua de produzir uma ordem para minha vida, nas folhas em branco dos cadernos do ensino médio, que resolvi bancar a dureza de trabalhar, frequentar pré-vestibular comunitário e depois fazer Letras. Mas o que ficou naqueles cadernos, espécies de diários confessionais, onde minha vida aflorava através da escrita auto-compreensiva, jamais veio à tona, depois que descobri a ficção, nunca mais voltei aos cadernos. Lembro deles agora que me falta o tom para o relato.
Não se trata de ficção e é por isso que aquele parágrafo com que comecei, como se fosse o início de mais uma das duzentas e trinta e seis páginas de Tráfico, ficou meio deslocado e passei a contar minha vida. Como se eu precisasse rever a totalidade de uma existência para chegar a um único fato. E, ainda assim, não saber se serei capaz de narrá-lo. Preciso ter certeza de que vivo, de que existo, de que sou feito de carne e osso, de que todas minhas funções vitais respondem e de que minhas faculdades mentais estão íntegras, para não causar a impressão de que o que vou escrever é o relato de um delírio. Temo por minha integridade, temo perder o respeito e a consideração que sempre tive de todos aqui na favela e fora dela. Alguns com certeza até me acham estranho, mas nunca, ninguém, dos chefões do tráfico que estão aí e os que já vi morrer, aos meus professores da faculdade, ninguém nunca deixou de concordar com o fato de que sou uma pessoa muito séria.
Agora, pela absurda simplicidade do que me aconteceu, preciso rever conceitos, crenças, ideologias. Tenho que repensar se realmente publico o romance que acabei de escrever. Sinto uma enorme vontade de chorar tudo que não chorei quando minha mãe morreu. Quero levar flores ao seu túmulo. Necessito urgentemente conversar com vizinhos mais velhos e tentar descobrir o paradeiro de meu pai, que, até onde sei, abandonou minha mãe grávida. Devo também reler todos os meus livros e rever as coisas que ando dizendo a meus alunos. Ah! e investir com mais afinco em encontrar a namorada certa. Se esse texto vier à tona, só terei o silêncio dos loucos e a chacota de meus mais respeitados amigos. Terei tempo para tomar umas na birosca e corrigir com mais calma as redações dos alunos.
Mas agora não posso deixar de escrever para poder dar conta do que me aconteceu ontem - e tremo só de lembrar. Eu tentava organizar umas passagens que não aproveitei para o romance, talvez aquilo me rendesse um conto. Algo que eu colocasse no blog, ou mesmo mandasse para uma revista, a fim de divulgar o lançamento. O pancadão na quadra fazia vibrar o vidro da janela e explodirem meus tímpanos. Não conseguia me concentrar no trabalho. A irritação aliava-se ao cansaço e eu lia e relia as páginas de duas passagens e não encontrava meios de articulá-las. Quando fui à cozinha pegar outro café, Machado de Assis estava sentado à mesa.
Machado, li e releio. Mas leio de tudo, clássicos principalmente, o primeiro clássico que li foi Virgílio (me atraiu um autor que tinha meu nome), depois fui a Homero, Dante, Camões, Cervantes. Shakespeare, nunca gostei muito. Apesar de toda badalação que fazem com o nome dele, acho suas histórias muito apelativas. É só comparar o exagero que transborda num Hamlet, por exemplo, com a concisão irônica de um Dom Casmurro, para entender o que digo. Machado não citou a peça do bardo inglês; recriou-a. E olha que se tem uma coisa de que entendo é literatura. E, modéstia à parte, sei escrever. Sei o que é estilo.
Namorei durante anos os textos do Bruxo. Custou-me chegar a uma escrita machadiana, a pureza vernácula e a leveza sintática, mas cheguei. Escrevi dois romances. Ainda estão aqui na gaveta. Todos os editores recusaram. Um deles, que acabou virando meu atual editor, aconselhou: é evidente que você tem talento, mas por que não tenta uma linguagem mais direta, falando da realidade, do dia-a-dia. Aproveita sua experiência na periferia, essas coisas estão vendendo e você tem um prato cheio. Custei a admitir essa prosa mais próxima do coloquial que namora com o baixo calão, mas acabei cedendo. E foi um pouco inspirado pelo batidão do funk, pelos tiroteios de polícia e bandido e pelos bebuns da birosca que, em menos de 60 noites mal dormidas, escrevi Tráfico, um thriller policial cheio de sexo, drogas e palavrões, sobre o submundo do crime e o cotidiano da favela. É um best-seller certo, disse meu editor e quis me pagar um adiantamento. Mas agora, depois do que me aconteceu ontem, acho que vou ter que procurar um advogado e impedir o lançamento do livro, marcado para daqui a 15 dias.
Não acredito que os fatos que me levam a desistir do sucesso certo devam ser escritos, mas preciso botar as idéias no lugar e, para mim, nada melhor do que a escrita. Foi por isso até, pela necessidade perpétua de produzir uma ordem para minha vida, nas folhas em branco dos cadernos do ensino médio, que resolvi bancar a dureza de trabalhar, frequentar pré-vestibular comunitário e depois fazer Letras. Mas o que ficou naqueles cadernos, espécies de diários confessionais, onde minha vida aflorava através da escrita auto-compreensiva, jamais veio à tona, depois que descobri a ficção, nunca mais voltei aos cadernos. Lembro deles agora que me falta o tom para o relato.
Não se trata de ficção e é por isso que aquele parágrafo com que comecei, como se fosse o início de mais uma das duzentas e trinta e seis páginas de Tráfico, ficou meio deslocado e passei a contar minha vida. Como se eu precisasse rever a totalidade de uma existência para chegar a um único fato. E, ainda assim, não saber se serei capaz de narrá-lo. Preciso ter certeza de que vivo, de que existo, de que sou feito de carne e osso, de que todas minhas funções vitais respondem e de que minhas faculdades mentais estão íntegras, para não causar a impressão de que o que vou escrever é o relato de um delírio. Temo por minha integridade, temo perder o respeito e a consideração que sempre tive de todos aqui na favela e fora dela. Alguns com certeza até me acham estranho, mas nunca, ninguém, dos chefões do tráfico que estão aí e os que já vi morrer, aos meus professores da faculdade, ninguém nunca deixou de concordar com o fato de que sou uma pessoa muito séria.
Agora, pela absurda simplicidade do que me aconteceu, preciso rever conceitos, crenças, ideologias. Tenho que repensar se realmente publico o romance que acabei de escrever. Sinto uma enorme vontade de chorar tudo que não chorei quando minha mãe morreu. Quero levar flores ao seu túmulo. Necessito urgentemente conversar com vizinhos mais velhos e tentar descobrir o paradeiro de meu pai, que, até onde sei, abandonou minha mãe grávida. Devo também reler todos os meus livros e rever as coisas que ando dizendo a meus alunos. Ah! e investir com mais afinco em encontrar a namorada certa. Se esse texto vier à tona, só terei o silêncio dos loucos e a chacota de meus mais respeitados amigos. Terei tempo para tomar umas na birosca e corrigir com mais calma as redações dos alunos.
Mas agora não posso deixar de escrever para poder dar conta do que me aconteceu ontem - e tremo só de lembrar. Eu tentava organizar umas passagens que não aproveitei para o romance, talvez aquilo me rendesse um conto. Algo que eu colocasse no blog, ou mesmo mandasse para uma revista, a fim de divulgar o lançamento. O pancadão na quadra fazia vibrar o vidro da janela e explodirem meus tímpanos. Não conseguia me concentrar no trabalho. A irritação aliava-se ao cansaço e eu lia e relia as páginas de duas passagens e não encontrava meios de articulá-las. Quando fui à cozinha pegar outro café, Machado de Assis estava sentado à mesa.
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Também estou no aguardo das próximas partes!
Li como um conto-ensaio, com a presença de elementos críticos de sua pesquisa. Qual o lugar desse personagem? Terá sempre que olhar para si e seus pares, sem poder representar e criar sobre o Outro. É um mecanismo perverso a cobrança de uma autoria que reflita a própria vivência.
Carolina Maria de Jesus sofreu muito com isso. Queria ela escrever sobre castelos, princesas em reinos distantes (ela escreveu isso no diário), mas só queriam a vida dela fixada em um diário. Quando saiu do quarto de despejo e foi para a casa de alvenaria, esqueceram da Carolina.