ESTA E A SEGUNDA PARTE. O CONTO COMEÇA AQUI
– Olá, meu jovem. Sei que desejarás fazer muitas perguntas, mas ao contrário do que podes supor não tenho a eternidade pela frente e preciso colocar umas idéias no lugar. É necessário que me acompanhes ao baile funk.
Foram exatamente essas palavras. Parece que não saem dos meus tímpanos. Não parafraseei uma pausa sequer. Garanto que foi isso, ipsis litteris, o que ouvi de Machado de Assis na minha cozinha. Talvez, o que primeiro venham me perguntar é se era ele mesmo. Disso não posso ter dúvida. A imagem exata da foto que há na notícia biográfica da edição da Nova Aguilar que tenho na estante. Por sinal a única obra completa que comprei, daquelas que seu Manolo, o livreiro da faculdade, vendia a prestações. Mas de qualquer forma ele não parecia importar-se com minha incredulidade. Tinha uma idéia fixa:
– Se duvidas de teus olhos, tanto se me dá. Apenas preciso ir ao baile funk, e sei-te o cicerone mais indicado, aqui, neste lugar que a hipocrisia ou a sociologia barata insistem chamar comunidade. Anda, apressa-te que não tenho muito tempo.
Colocar em dúvida a identidade de meu interlocutor não é, asseguro, uma boa maneira de me questionar. Tenho argumentos definitivos para garantir que era ele. O que, na verdade, não conseguirei nunca explicar, foi o que se passou comigo. Que força oculta impediu-me de contestar àquele apelo que se convertia em ordem. Em silêncio e sem deslumbramento, vesti-me com uns jeans e uma camiseta que, coisa de homem que mora sozinho, estavam à mão, no encosto de uma das cadeiras da cozinha. Então vamos lá, falei, e Joaquim Maria Machado de Assis, o maior escritor brasileiro de todos os tempos, seguiu-me pelos becos da favela, até a quadra, que não era muito longe da minha casa.
Foram exatamente essas palavras. Parece que não saem dos meus tímpanos. Não parafraseei uma pausa sequer. Garanto que foi isso, ipsis litteris, o que ouvi de Machado de Assis na minha cozinha. Talvez, o que primeiro venham me perguntar é se era ele mesmo. Disso não posso ter dúvida. A imagem exata da foto que há na notícia biográfica da edição da Nova Aguilar que tenho na estante. Por sinal a única obra completa que comprei, daquelas que seu Manolo, o livreiro da faculdade, vendia a prestações. Mas de qualquer forma ele não parecia importar-se com minha incredulidade. Tinha uma idéia fixa:
– Se duvidas de teus olhos, tanto se me dá. Apenas preciso ir ao baile funk, e sei-te o cicerone mais indicado, aqui, neste lugar que a hipocrisia ou a sociologia barata insistem chamar comunidade. Anda, apressa-te que não tenho muito tempo.
Colocar em dúvida a identidade de meu interlocutor não é, asseguro, uma boa maneira de me questionar. Tenho argumentos definitivos para garantir que era ele. O que, na verdade, não conseguirei nunca explicar, foi o que se passou comigo. Que força oculta impediu-me de contestar àquele apelo que se convertia em ordem. Em silêncio e sem deslumbramento, vesti-me com uns jeans e uma camiseta que, coisa de homem que mora sozinho, estavam à mão, no encosto de uma das cadeiras da cozinha. Então vamos lá, falei, e Joaquim Maria Machado de Assis, o maior escritor brasileiro de todos os tempos, seguiu-me pelos becos da favela, até a quadra, que não era muito longe da minha casa.
Logo que entramos não pude deixar de atentar para a ansiedade de Napô, um soldado do tráfico, que me abordou. Você por aqui, Virgo, e qual é a do tio aí? Virgo era como todos que me conheciam desde a infância me chamavam. De Virgílio para Virgo, um caso típico de braquissemia, diria o Lemos, o titular de morfologia na minha época da faculdade. O que o mestre não conseguiria jamais explicar era porque Antônio, um rapaz que na época estudava no mesmo colégio estadual que eu, tinha o apelido de Napô. O caso é sui generis. Não deveria interromper justo aqui para contá-lo. Mas, como disse antes, não estou escrevendo um conto de ficção - apenas quero recobrar o que se passou comigo ontem à noite e dou asas a pena de forma meio psicanalítica, o que me vem à cabeça, escrevo. O fato é que certo dia, na rodinha de ociosos que formávamos no pátio do colégio, Antônio revelou julgar que meu nome de batismo fosse Napoleão. Napoleão? inquiri estranhando. A explicação, leitor, foi uma aula de história para (e perdoem-me a incorreção política mas a ênfase o exige) para crioulo doido nenhum colocar defeito. E suma, Antônio associou meu apelido, Virgo, a Virgulino e concluiu que o meu nome só poderia ser o mesmo que o do famoso cangaceiro, Virgulino Napoleão! Foi o suficiente para a chacota coletiva, e as meninas da roda logo começaram a chamá-lo, por gracejo, Napoleão, que, agora sim, mais um caso típico de braquissemia, virou Napô. O apelido pegou.
Não é preciso dizer, pela natureza da abordagem de Napoleão na entrada da quadra, uma nove milímetros no punho e um FAL atravessado no tronco, que nos afastamos bastante desde a época do colégio. Mas nunca deixei de respeitá-lo e a recíproca também era verdadeira. Há uma espécie de compreensão tácita para com os que ingressam no crime numa favela, por parte de seus amigos de infância que não entram, que torna qualquer tentativa de explicação sociológica do fenômeno, superficial. Não posso dizer que sei o que seja isso e que poderia ser eu a estar no lugar de Napô, devido apenas à contrariedade das condições sociais e econômicas, enfim, do meio em que vivi. Por convicção ou covardia (o que pode dar na mesma) jamais eu teria entrado para o tráfico. Aqui mesmo na favela já vi muito cara ficar na merda, mas nem por isso aceitar ser cooptado por traficante. E não é porque eu fui filho único e minha mãe se esfolou para me garantir o mínimo de educação. Também já vi muita família em que o pai, a mãe e uns irmãos entraram pro bicho, e outros correram atrás; estão aí, no trampo. Esses casos não dão ipobe pros antropólogos nem pros escritores oportunistas (e, pensando em meu romance, sei que sou um desses). Mas o fato é que aqui dentro, entre nós, há um código que nem a mídia nem os pesquisadores sabem traduzir direito. Não entendem.
A abordagem de Napô não poedia deixar de ser natural. Sem dúvida era estranha a minha presença no baile funk, ainda mais acompanhado por um sujeito vindo direto da Belle Époque carioca. E foi no lapso de tempo em que eu imaginava uma resposta convincente, que Machado se imiscuiu por entre a galera e sumiu do alcance de minhas vistas.
– E aí, Napô, que nada. Esse aí é um colega lá da escola, professor de geografia, que queria conhecer o pancadão.
– Conhecer, mermão? O cara já sabe tudo, ó lá – e apontou pra o meio da multidão.
Antes que eu me voltasse para onde Napô apontava, percebi um sinal mal disfarçado que ele fizera ao Frank, um olheiro que estava no outro extremo do portão da quadra. Não havia motivos claros para isso, mas sua desconfiança me deixou inseguro. Mas relevei o fato e segui seu dedo em direção a Machado.
Só consigo narrar o que vi a seguir, porque, de fato, assisti à cena. Não creio que alguém fosse capaz de imaginar algo tão insólito. E temo não encontrar o tom ideal para que o leitor dê fé. Mas repito: de fato aconteceu. Pergunte a quem me conhece. Origem humilde e, justamente por isso, sempre temi arriscar a credibilidade que depositassem em mim. Sempre fiz minhas contas na medida em que as podia pagar. E, principalmente, se quisesse fazer ficção, jamais usaria o método fácil de recorrer a fórmulas do gênero biográfico, recurso que só uns autores sem criatividade de hoje em dia usam.
Não esqueço, de quando eu ainda estava na faculdade, a aula que o professor Afonso, titular de Literatura Brasileira dera sobre a epifania em Clarice Lispector. Na época achei tudo aquilo um exagero, meio fora da realidade, gostava mais de Jorge Amado, dos realistas russos, de Graciliano Ramos e de João Antônio. Mas agora sou obrigado a admitir: eu sempre quisera experimentar uma epifania. E o que vi ontem, teria sido minha primeira epifania? Fecho os olhos, revejo mentalmente a cena, mas não sei responder Por favor, não pense que adio a narração do que se passou para recorrer a expedientes folhetinescos, dos quais o meu escritor era um dos mestres. Repito: não é de ficção que me ocupo agora e se custa-me revelar o que vi e vivi, é porque temo o que terei que reviver através das palavras que escrevo.
AQUI, A TERCEIRA E ÚLTIMA PARTE
Adicionar comentário
| < Anterior | Próximo > |
|---|







