O crescimento do comércio varejista de entorpecentes favoreceu o fortalecimento de uma série de atividades na sociedade. Algumas, mesmo diretamente relacionadas a esta prática ilícita, são exercidas na legalidade e não sofrem nenhum tipo de repressão dos órgãos de segurança pública. É o caso da venda de rádios transmissores, utilizados pelos grupos que vivem da exploração deste comércio como meio de comunicação. Este equipamento, facilmente encontrado em grandes lojas de eletrônicos, é produzido em larga escala nos subúrbios de Pequim em ambientes pouco arejados por alguns milhares de homens e mulheres que ficam sentados horas a fio em frente a uma bancada pouco iluminada. Outro produto ligado à comunicação, e que teve sua vendagem ampliada, são os fogos de artifício. O uso deste recurso revela aspectos interessantes da ação destes grupos. Acionados quando são avistados elementos suspeitos rondando as cercanias da localidade dominada, os fogos servem não apenas para avisar aos membros do grupo da presença de um rival, mas, principalmente, para informar aos sujeitos invasores que aproximação já foi identificada.
Os fogos de artifício são fabricados em pequenos galpões espalhados pelo interior do Brasil, principalmente em municípios pobres da Bahia, Maranhão e Sergipe. A mão de obra utilizada em seu fabrico é basicamente infantil. Não são conhecidos os casos de acidentes durante a fabricação. Mas estes acontecem rotineiramente.
Na estrutura formada diretamente a partir da venda de artigos entorpecentes são importantes as figuras do olheiro e do sacoleiro, além dos soldados – estes destinados à segurança armada. O primeiro deve agir sorrateiramente, observando a aproximação de qualquer elemento suspeito – seja membro de um grupo rival ou dos órgãos de repressão do Estado. Ao avistar qualquer movimentação suspeita, o olheiro deve comunicar o fato ao grupo pelo rádio transmissor ou acionar os fogos de artifício. O segundo, de posse de uma sacola – ou mochila- fica responsável pela venda das substâncias. Se no primeiro caso é imprescindível a utilização de uma pessoa de pouca idade no cargo, são raros os empregados que são maiores de dezoito anos nesta atividade, para ser sacoleiro é fundamental ser conhecedor dos números e realizar contas com rapidez. O soldado, como os próprio termo indica, é responsável pelo defesa do local.
Fernando, morador do Morro da Providência, negro, idade indefinida entre os 18 e 20 anos, era olheiro de uma das seções de venda. Iniciou aos 12 sua participação no grupo. Primeiro fazia favores. Nada que pedisse muito do pequeno. Um recado para alguém, pegar uma cerveja no bar ou dar um toque em uma novinha a mando de um soldado. Com o amadurecimento do menino, aos poucos a confiança foi crescendo e rápido chegou a olheiro. Se fosse ofertada uma possibilidade para que Fernando pudesse explicar por que traçou tal destino, este responderia que foi pelo dinheiro. Uma equação simples que é efetuada diariamente: negro, pobre e morador de favela é igual a futuro varejista de entorpecentes. Ele não fugia a regra. Na verdade, sua entrada no grupo alimentou essa engrenagem. Não criou esforços para fugir dela, ao contrário, lutou com todo o empenho para adentra-la. Mas Fernando nunca explicou seus motivos, nunca o perguntaram.
Desempenhou com precisão sua atividade. Era sério, responsável e assíduo. Nas poucas vezes em que seu posto era requisitado não titubeava e informava corretamente ao restante do grupo, pelo rádio transmissor, a posição, situação e condição do suspeito que adentrava a localidade. E quando avistava viaturas dos órgãos de segurança pública nas cercanias do seu posto de observação, Fernando acionava primeiramente os fogos de artifício. Nessas ocasiões divertia-se constatando os olhares assustados dos agentes policiais voltados para o emaranhado de lajes na busca pelo local exato em que os fogos foram lançados.
Fernando percorreu sua trajetória como o esperado e virou sacoleiro. Ágil nas contas, nunca seu posto de vendas apresenta balanços contraditórios. A mesma seriedade é vista no trato com os compradores. Fala apenas o indispensável. É um comerciante, mas não age como tal. Sabe que não precisa usar seu poder de convencimento. Seu produto tem apelo próprio. Mesmo escolhendo os lugares mais escondidos da localidade para montar seu posto, sobretudo quando os fogos de artifício poluem os céus, contrariando qualquer manual de vendas, Fernando tem compradores certos.
A confiança que o grupo deposita em Fernando se materializou na possibilidade de iniciar a comercialização de um novo produto, inédito no mercado local, em uma esquina próxima ao Campo de Santana, no Centro da Cidade. Agora ele age só. Fica transitando pelos bares e barracas munido apenas do produto em uma sacola. Não foi necessário oferecer a substância, os clientes ao saberem da novidade correram experimentar. Em pouco, muitos já estavam presos a ela. A clientela era grande. Jovens, de ambos os sexos, negros, pardos e brancos, todos pobres. Alguns viviam por ali, sem ponto fixo, vergando noites pelas calçadas e dias pelas ruas. Vez ou outra apareciam crianças.
Rita, negra, 15 anos de idade, era uma das compradoras de Fernando. Olhos vidrados e corpo franzino, possuidora de uma sombra fina e apagada, Rita, Ritinha entre os chegados, morava em pontos incertos entre a Azeredo Coutinho e a Moncorvo Filho. Dias rondando as beiras das calçadas e noites entulhada nas franjas das marquises. Desde os 12 vagava pelas dobras das ruas, sempre tentando empinar o corpo com poucos ganhos. Trocados recolhidos pela misericórdia de quem transita, quinquilharias sugadas pela agilidade da fome e moedas deitadas pelos afagos recebidos por entre as árvores da praça. Tudo largado nas mãos de Fernando, levados por mãos tremulas de um corpo que cambaleava em passos certos até o posto de venda. A quantia sempre era a necessária, nunca havia troco. Nada sobra nessas transações.
Quando perguntavam a Ritinha o que ela fazia ali, daquele jeito, com a sombra já apagada, sem família, teto e jantar, ela nada respondia. Motivos, talvez tivesse. Mas nunca os revelava. Os tinha guardados. Não eram necessariamente segredos. Corriam histórias diversas, umas dando conta de um pai, sujeito valentão da Baixada Fluminense, que judiava da menina quando ela ainda nem tinha trocado todos os dentes. De tanto apanhar, resolveu largar da casa. Outros falavam de uma mãe, mulher correta, do trabalho pra igreja, crente devota, bíblia na mão e oração nos lábios. Essa mãe, que vivia mais fora que dentro de casa, deixava a menina, que ainda não traçava as palavras em frases, aos cuidados de uma vizinha. Um dia, depois de sair do trabalho e orar no culto das oito horas, essa mãe bateu palmas na porta da vizinha. Foram uma, duas, três palmas. Das fortes, daquelas que fazem cachorro latir e fofoqueira abrir janela para averiguar. Nada. Insistiu mais um par de vezes. Decidiu entrar. A partir daí surgem duas versões. Umas falam que a mulher caiu sem fôlego do terror que viu, bateu a cabeça e ficou abobada. Outras falam que a mulher aterrorizada com o que viu partiu pra cima do marido da vizinha, e no revide o homem matou a mãe com uma facada. Mas todas as histórias afirmam que a menina passou aos cuidados de uma tia, mulher de porta de botequim que levava na boca cigarro e palavreado. E deu no que deu.
Quando sentiu o ventre crescendo, não teve dúvidas, estava grávida. Logo começaram a povoar seus caminhos um punhado de perguntas: “Quem é o pai?”, “Quanto tempo?”, “Vai ter o filho aonde?”. Procurou ajuda. Sentada, com um abraço cansado em torno das pernas, ficou horas na porta do Hospital. Sirene cantou, criança tremeu e visita chorou, mas nada de um olhar. Com a fome que não abranda e o pulmão em chiados, decidiu parar o primeiro de branco que passasse. Repulsa. O segundo. De saída. O terceiro. Hora de almoço. O quarto. Ofereceu maca, agulha e algodão. Depois, endereço?, filiação? e profissão? Documentos? Nada. Enfim, braços arroxeados e papel nas mãos, volta pra rua. Recomendação, nada de nada. Corpo limpo para criança limpa.
Dias, noites, chuva e sol. Nada de visitar a pedra. Longe. Corpo que treme, ar que falta e fantasma que perambula. Ninguém se aproximava, bicho feroz que era. Seca, fissura e garras que traçam ranhuras na alma. A falta passa a preencher o vazio da ausência. Viveu semanas amontoada nas beiradas das curvas, sem força nem para oferecer a piedade a quem passava sem olhar. Os outros até se apiedavam, chegavam em montes ofertando o que não era deles. Dia após dia um se fazia mais presente. Acudia, perguntava qualquer coisa sem resposta e logo vagava. Era o pai? Nem Ritinha sabia responder. Não tinha precisão em saber e muito menos de saber. Noites de frio gelado, pedras portuguesas pontiagudas, cheiro nauseante do bueiro e o calor de corpos que se aproximam na busca por um abrigo. Em algumas vezes, amontoados, um, dois, três (outras até quatro), buscam forçosamente o consolo de um colo nos frangalhos de braços de Ritinha. Lutava. Impedia, mordia e gritava. Mas, com o tempo, percebeu que isso só alimentava ainda mais a investida. Corpo entregue, sem emoção, torna tudo mais rápido e menos doloroso.
Um dia, peregrina pela cercas do Campo de Santana, Rita consome em passos lentos as calçadas. Respira sem percalços e só o chão que trepida com a passagem dos ônibus. Nada procura. Apenas olha. Imagina novos caminhos, outras paragens. Experimenta lançar a mão ao ventre. Nem nome ainda tem. Deve ser por esses dias. Senta ao meio-fio. Nenhum dos chegados por perto. Todos ainda entocados. Nem meio-dia e já sente fome. A bexiga aperta. Poderia esvaziar-se ali, sentada, de frente a um boteco, lançar o mijo ao chão, empapuçar toda a roupa. Mas acha melhor procurar refugio. Um vacilo, vira merda. Polícia, guarda ou segurança, dá ponta pé e manda vazar. Um bar, boteco ou beco, será melhor. No primeiro, não dão a chave. No segundo, não deixam entrar. No terceiro, fedido à bosta e lixo, despeja a urina untando as canelas. Levanta a roupa e cospe no chão. Sai do beco e vê. Pensa em desviar caminho, atravessar pro outro lado, romper a rua e galgar nova calçada. Mas fica parada. Ele também a vê. Não esboça sorriso ou algo semelhante. Ambos se reconhecem. Paralisados. Nada falam ou fazem. Silêncio. Segundos que passam na espera de algo. Nada acontece. Ele dá as costas, retoma o caminho. Ela ainda espera um retorno. Nada acontece, a não ser o caminhar obstinado dele, ereto e confiante. Uma pontada, não daquelas que a mulher recebe quando estão no aguardo, mas dessas que perfuram o peito e sufocam, deixando a boca entre aberta na espera de ar, atingiu Ritinha. Queria alguém ao lado, alguém que pudesse falar: vai, vai atrás dele, segura o braço dele e esbofeteia a cada dele, vai, vai atrás dele e manda ele para aputaquepariu, vai, vai atrás dele e fala que você trepou com ratos e comeu com moleques todos esses anos, vai, vai atrás dele e fala que é melhor viver na rua que do lado de um puto, vai, vai atrás dele e...E ele sumiu.
Ritinha tropeçou e esbarrou em toda a sorte de pessoas que transitavam pela Visconde de Rio Branco e recebeu em troca xingamentos e empurrões. Ninguém conhecido. Percorreu desesperada as marquises, becos e bueiros, só restos. Ninguém. Tinha que falar: vi meu pai e o puto não quis me ver. Sentou no meio-fio. Abraçou as pernas, prendeu a cabeça no vão formado. Ficou ali até sentir uma mão tocando seu ombro. Levantou o olhar e viu Fernando, sacola em torno do corpo e na mão um punhado de pedra. Ritinha demorou alguns segundos para entender e foi necessário Fernando dizer: “Sumiu? Tô te dando essas” E estendeu ainda mais as mãos. Ritinha levantou e recolheu as pedras. Fernando indicou uma ruela em frente. Ritinha nada disse. Caminhou devagar até o local, com Fernando atrás. Preparou um cachimbo e fumou.
Fernando, anos mais tarde, irá narrar em minúcias para alguns membros do grupo a forma como “uma mina, daquelas novinhas do Campo de Santana, ficou no chão o maior tempão, estilo uma luta contra os efeitos da pedra, tá ligado, e depois abortou lá mesmo.”
Na estrutura formada diretamente a partir da venda de artigos entorpecentes são importantes as figuras do olheiro e do sacoleiro, além dos soldados – estes destinados à segurança armada. O primeiro deve agir sorrateiramente, observando a aproximação de qualquer elemento suspeito – seja membro de um grupo rival ou dos órgãos de repressão do Estado. Ao avistar qualquer movimentação suspeita, o olheiro deve comunicar o fato ao grupo pelo rádio transmissor ou acionar os fogos de artifício. O segundo, de posse de uma sacola – ou mochila- fica responsável pela venda das substâncias. Se no primeiro caso é imprescindível a utilização de uma pessoa de pouca idade no cargo, são raros os empregados que são maiores de dezoito anos nesta atividade, para ser sacoleiro é fundamental ser conhecedor dos números e realizar contas com rapidez. O soldado, como os próprio termo indica, é responsável pelo defesa do local.
Fernando, morador do Morro da Providência, negro, idade indefinida entre os 18 e 20 anos, era olheiro de uma das seções de venda. Iniciou aos 12 sua participação no grupo. Primeiro fazia favores. Nada que pedisse muito do pequeno. Um recado para alguém, pegar uma cerveja no bar ou dar um toque em uma novinha a mando de um soldado. Com o amadurecimento do menino, aos poucos a confiança foi crescendo e rápido chegou a olheiro. Se fosse ofertada uma possibilidade para que Fernando pudesse explicar por que traçou tal destino, este responderia que foi pelo dinheiro. Uma equação simples que é efetuada diariamente: negro, pobre e morador de favela é igual a futuro varejista de entorpecentes. Ele não fugia a regra. Na verdade, sua entrada no grupo alimentou essa engrenagem. Não criou esforços para fugir dela, ao contrário, lutou com todo o empenho para adentra-la. Mas Fernando nunca explicou seus motivos, nunca o perguntaram.
Desempenhou com precisão sua atividade. Era sério, responsável e assíduo. Nas poucas vezes em que seu posto era requisitado não titubeava e informava corretamente ao restante do grupo, pelo rádio transmissor, a posição, situação e condição do suspeito que adentrava a localidade. E quando avistava viaturas dos órgãos de segurança pública nas cercanias do seu posto de observação, Fernando acionava primeiramente os fogos de artifício. Nessas ocasiões divertia-se constatando os olhares assustados dos agentes policiais voltados para o emaranhado de lajes na busca pelo local exato em que os fogos foram lançados.
Fernando percorreu sua trajetória como o esperado e virou sacoleiro. Ágil nas contas, nunca seu posto de vendas apresenta balanços contraditórios. A mesma seriedade é vista no trato com os compradores. Fala apenas o indispensável. É um comerciante, mas não age como tal. Sabe que não precisa usar seu poder de convencimento. Seu produto tem apelo próprio. Mesmo escolhendo os lugares mais escondidos da localidade para montar seu posto, sobretudo quando os fogos de artifício poluem os céus, contrariando qualquer manual de vendas, Fernando tem compradores certos.
A confiança que o grupo deposita em Fernando se materializou na possibilidade de iniciar a comercialização de um novo produto, inédito no mercado local, em uma esquina próxima ao Campo de Santana, no Centro da Cidade. Agora ele age só. Fica transitando pelos bares e barracas munido apenas do produto em uma sacola. Não foi necessário oferecer a substância, os clientes ao saberem da novidade correram experimentar. Em pouco, muitos já estavam presos a ela. A clientela era grande. Jovens, de ambos os sexos, negros, pardos e brancos, todos pobres. Alguns viviam por ali, sem ponto fixo, vergando noites pelas calçadas e dias pelas ruas. Vez ou outra apareciam crianças.
Rita, negra, 15 anos de idade, era uma das compradoras de Fernando. Olhos vidrados e corpo franzino, possuidora de uma sombra fina e apagada, Rita, Ritinha entre os chegados, morava em pontos incertos entre a Azeredo Coutinho e a Moncorvo Filho. Dias rondando as beiras das calçadas e noites entulhada nas franjas das marquises. Desde os 12 vagava pelas dobras das ruas, sempre tentando empinar o corpo com poucos ganhos. Trocados recolhidos pela misericórdia de quem transita, quinquilharias sugadas pela agilidade da fome e moedas deitadas pelos afagos recebidos por entre as árvores da praça. Tudo largado nas mãos de Fernando, levados por mãos tremulas de um corpo que cambaleava em passos certos até o posto de venda. A quantia sempre era a necessária, nunca havia troco. Nada sobra nessas transações.
Quando perguntavam a Ritinha o que ela fazia ali, daquele jeito, com a sombra já apagada, sem família, teto e jantar, ela nada respondia. Motivos, talvez tivesse. Mas nunca os revelava. Os tinha guardados. Não eram necessariamente segredos. Corriam histórias diversas, umas dando conta de um pai, sujeito valentão da Baixada Fluminense, que judiava da menina quando ela ainda nem tinha trocado todos os dentes. De tanto apanhar, resolveu largar da casa. Outros falavam de uma mãe, mulher correta, do trabalho pra igreja, crente devota, bíblia na mão e oração nos lábios. Essa mãe, que vivia mais fora que dentro de casa, deixava a menina, que ainda não traçava as palavras em frases, aos cuidados de uma vizinha. Um dia, depois de sair do trabalho e orar no culto das oito horas, essa mãe bateu palmas na porta da vizinha. Foram uma, duas, três palmas. Das fortes, daquelas que fazem cachorro latir e fofoqueira abrir janela para averiguar. Nada. Insistiu mais um par de vezes. Decidiu entrar. A partir daí surgem duas versões. Umas falam que a mulher caiu sem fôlego do terror que viu, bateu a cabeça e ficou abobada. Outras falam que a mulher aterrorizada com o que viu partiu pra cima do marido da vizinha, e no revide o homem matou a mãe com uma facada. Mas todas as histórias afirmam que a menina passou aos cuidados de uma tia, mulher de porta de botequim que levava na boca cigarro e palavreado. E deu no que deu.
Quando sentiu o ventre crescendo, não teve dúvidas, estava grávida. Logo começaram a povoar seus caminhos um punhado de perguntas: “Quem é o pai?”, “Quanto tempo?”, “Vai ter o filho aonde?”. Procurou ajuda. Sentada, com um abraço cansado em torno das pernas, ficou horas na porta do Hospital. Sirene cantou, criança tremeu e visita chorou, mas nada de um olhar. Com a fome que não abranda e o pulmão em chiados, decidiu parar o primeiro de branco que passasse. Repulsa. O segundo. De saída. O terceiro. Hora de almoço. O quarto. Ofereceu maca, agulha e algodão. Depois, endereço?, filiação? e profissão? Documentos? Nada. Enfim, braços arroxeados e papel nas mãos, volta pra rua. Recomendação, nada de nada. Corpo limpo para criança limpa.
Dias, noites, chuva e sol. Nada de visitar a pedra. Longe. Corpo que treme, ar que falta e fantasma que perambula. Ninguém se aproximava, bicho feroz que era. Seca, fissura e garras que traçam ranhuras na alma. A falta passa a preencher o vazio da ausência. Viveu semanas amontoada nas beiradas das curvas, sem força nem para oferecer a piedade a quem passava sem olhar. Os outros até se apiedavam, chegavam em montes ofertando o que não era deles. Dia após dia um se fazia mais presente. Acudia, perguntava qualquer coisa sem resposta e logo vagava. Era o pai? Nem Ritinha sabia responder. Não tinha precisão em saber e muito menos de saber. Noites de frio gelado, pedras portuguesas pontiagudas, cheiro nauseante do bueiro e o calor de corpos que se aproximam na busca por um abrigo. Em algumas vezes, amontoados, um, dois, três (outras até quatro), buscam forçosamente o consolo de um colo nos frangalhos de braços de Ritinha. Lutava. Impedia, mordia e gritava. Mas, com o tempo, percebeu que isso só alimentava ainda mais a investida. Corpo entregue, sem emoção, torna tudo mais rápido e menos doloroso.
Um dia, peregrina pela cercas do Campo de Santana, Rita consome em passos lentos as calçadas. Respira sem percalços e só o chão que trepida com a passagem dos ônibus. Nada procura. Apenas olha. Imagina novos caminhos, outras paragens. Experimenta lançar a mão ao ventre. Nem nome ainda tem. Deve ser por esses dias. Senta ao meio-fio. Nenhum dos chegados por perto. Todos ainda entocados. Nem meio-dia e já sente fome. A bexiga aperta. Poderia esvaziar-se ali, sentada, de frente a um boteco, lançar o mijo ao chão, empapuçar toda a roupa. Mas acha melhor procurar refugio. Um vacilo, vira merda. Polícia, guarda ou segurança, dá ponta pé e manda vazar. Um bar, boteco ou beco, será melhor. No primeiro, não dão a chave. No segundo, não deixam entrar. No terceiro, fedido à bosta e lixo, despeja a urina untando as canelas. Levanta a roupa e cospe no chão. Sai do beco e vê. Pensa em desviar caminho, atravessar pro outro lado, romper a rua e galgar nova calçada. Mas fica parada. Ele também a vê. Não esboça sorriso ou algo semelhante. Ambos se reconhecem. Paralisados. Nada falam ou fazem. Silêncio. Segundos que passam na espera de algo. Nada acontece. Ele dá as costas, retoma o caminho. Ela ainda espera um retorno. Nada acontece, a não ser o caminhar obstinado dele, ereto e confiante. Uma pontada, não daquelas que a mulher recebe quando estão no aguardo, mas dessas que perfuram o peito e sufocam, deixando a boca entre aberta na espera de ar, atingiu Ritinha. Queria alguém ao lado, alguém que pudesse falar: vai, vai atrás dele, segura o braço dele e esbofeteia a cada dele, vai, vai atrás dele e manda ele para aputaquepariu, vai, vai atrás dele e fala que você trepou com ratos e comeu com moleques todos esses anos, vai, vai atrás dele e fala que é melhor viver na rua que do lado de um puto, vai, vai atrás dele e...E ele sumiu.
Ritinha tropeçou e esbarrou em toda a sorte de pessoas que transitavam pela Visconde de Rio Branco e recebeu em troca xingamentos e empurrões. Ninguém conhecido. Percorreu desesperada as marquises, becos e bueiros, só restos. Ninguém. Tinha que falar: vi meu pai e o puto não quis me ver. Sentou no meio-fio. Abraçou as pernas, prendeu a cabeça no vão formado. Ficou ali até sentir uma mão tocando seu ombro. Levantou o olhar e viu Fernando, sacola em torno do corpo e na mão um punhado de pedra. Ritinha demorou alguns segundos para entender e foi necessário Fernando dizer: “Sumiu? Tô te dando essas” E estendeu ainda mais as mãos. Ritinha levantou e recolheu as pedras. Fernando indicou uma ruela em frente. Ritinha nada disse. Caminhou devagar até o local, com Fernando atrás. Preparou um cachimbo e fumou.
Fernando, anos mais tarde, irá narrar em minúcias para alguns membros do grupo a forma como “uma mina, daquelas novinhas do Campo de Santana, ficou no chão o maior tempão, estilo uma luta contra os efeitos da pedra, tá ligado, e depois abortou lá mesmo.”
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você tem toda a razão, a primeira parte possui um tom semelhante ao empregado na academia. Um quase relatório, talvez. É nessa parte que fica mais clara a alusão ao texto do Machado (Pai contra mãe) que serviu de trampolim para a feitura do conto. Um olhar quase distanciado sobre o tema, apenas descrevendo.
Pois é, o tempo passa mas a prática continua. Os traficantes do séc. XVIII queriam a pólvora tanto quanto os de hoje. Cada qual com uma finalidade.
Gostei, é bacana poder receber um olhar crítico, apontando caminhos e identificando trajetos.
Mudei alguns dos pontos e acabei deixando outros. Não por não concordar. Mas achei melhor o texto ficar no ar, ter vida própria logo. Os próximos serão formados a partir desses toques.
2) Acho que o conto tem dois movimentos. Um que se refere a Fernando e outro a Ritinha. A escrita ágil de Ritinha constrasta com a escreita mais dura, menos pontuada de Ferenando.
3) Questão - tomar cuidado para que a oficina de Machado de Assis não se torne uma oficina da sociologia em Machado de Assis. Explico-me: Machado tinha a capacidade de falar sobre as coisas que incomodavam e incomodam sem nelas tocar, apenas sugerindo o humor com que as relativizavae por isso se tornava mais cáustico e pesado.
4) Creio que o final do conto traz esse humor.
- O conto acrescenta ao original uma nova leitura para a escrvidão (além da econômica, é claro) que é a que a da dependência química. Não renderia explicitar por que Fernando vai vender a pedra na cidade e, com isso, sai da boca ? Seria legal aprofundar num comentário meio jocoso, meio desalentado, meio machadiano sobre a relação do crack com a população de rua, e com um certo "controle da população" (que horror!). É fato que houve nas bocas do Rio, inicialmente, uma resistência ao crack pois levaria a perder clientes. Ou a simples mudança de ambiente já sugere isso e poderia ficar tudo por conta do leitor?