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Literatura Marginal - o conto (parte 3)

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ESTA É A TERCEIRA E  ÚLTIMA PARTE DO CONTO.  A PARTE ANTERIOR COMEÇA AQUI.
No meio da massa, a galera formou uma rodinha, e no no centro desta, Machado de Assis dançava funk. Ante à potência aterrorizante daquelas caixas de som, a figura esguia e já então descabelada do Bruxo, rodava o terno acima da cabeça com uma das mãos. Com a outra empurrava o ar à sua frente, em movimentos ritmados. E, calças levantadas atá o meio da canela, requebrava até o chão, enquanto o MC gritava:

É som de preto, de favelado
mas quando toca ninguém fica parado

Não tenho como precisar por quanto tempo contemplei aquela cena. É provável que tenha sido tomado por uma espécie de transe, e o que na verdade deve ter levado segundos, pareceu-me transcorrer durante uma eternidade. Quando dei por mim, Frank se aproximava, walkie-talkie em punho, ainda falava: já é, já é chefia, deixa que eu levo o homem aí. Pela forma como me olhou e depois para Napô, ficou nítido o que viria depois:

- Ô Virgo, o chefe quer levar uma idéia contigo lá em cima. E depois de uma pausa em que ainda tentei me esquivar, que estava com meu amigo, que não ia ser legal deixá-lo sozinho, ele completou: é agora, não tem caô não. Frank já estava meio doidão, mas Napô ainda contemporizou: vai lá meu irmão e deixa que eu não vou tirar o olho do professor. Troca lá uma idéia com o chefe e desce na paz, que o tio vai ficar bem guardado.

O chefe, o atual dono do morro é o Cara. É assim que todos o conhecem. Assim ele mesmo faz questão de ser tratado, a frase “eu sou o cara”, mais ou menos cantada, no ritmo de um rock antigo do Cazuza, é seu bordão. E comigo ele foi direto ao assunto, quando entrei no QG, escoltado pelo Frank:

- Aí, Virgo, te chamei pruma conversa, mas cê sabe quem conversa e quem ouve calado aqui. Tamo sabendo que tu vai lançar um livro aí, falando da favela, botando às claras o trampo da rapaziada. Ó, o padrinho que me ligou e te mandou essa idéia. Ele disse que vai ler o tal do livro. E que se tu tiver falado demais, não vai ter perdão, não, tá entendido? Mesmo com toda a consideração que é pra ter com a finada sua mãe, que Deus a tenha, é bom tu pensar bem no que vai dizer. Nada de nome de graúdo no meio. Já é?

O recado estava dado. Ouvi em silêncio. Sabia infrutífera qualquer tentativa de argumento ou resposta. Fitei o Cara nos olhos, naquela situação, meu silêncio, sequer um “já é” por assentimento protocolar, e o olhar acintoso era a pior resposta. Mas na verdade não conseguia pensar no livro, no risco de publicá-lo. Não faziam mais sentido aquelas ameças. Pensava em Machado na quadra, dançando funk. Queria voltar rápido. Por mais reveladora que fosse aquela cena, queria conversar com o Bruxo, aproveitar sua presença. Menos do que a ameaça do Cara, e do padrinho - que determinava tudo, apenas com um telefone celular, na segurança máxima de uma cela de Bangu - a mensagem de Machado era clara: eu cedera demais. Nunca deveria ter escrito Tráfico. Não pelo menos do jeito que o romance está escrito, com o pensamento maniqueísta, reproduzindo os valores da sociedade de consumo sem o mínimo de crítica ou relativismo. Sobretudo: sem ironia. Mas a ameaça que eu acabara de sofrer poderia acabar servindo como um bom argumento para  retirar o romance da fila na gráfica (se ainda der tempo!). Pedirei para fazer mais uma revisão. Ou, na pior das hipóteses, alegarei o direito ao ineditismo, que é um direito inalienável de qualquer autor. Mas para isso preciso de um advogado e ainda terei que, no mínimo, devolver o adiantamento.

Já estava em meio a essas divagações e me preparava para descer o morro, quando o  walkie-talkie chamou, chefia, chefia, o tio sumiu. Era Napô, bastante assustado, da quadra. Obviamente, referia-se a Machado. Como sumiu, você não ficou de olho? o Cara perguntou ao rádio, mas já voltava a me encarar. Seu olhar inquiria mais a mim, do que sua voz a Napô. Este do outro lado, com a voz quase em pânico, tentava explicar:

- Ele veio vindo na minha direção. Achei que ia procurar o Virgo. Mas aí falou umas coisas que eu não entendi, falou num tal de picarote. E sumiu, assim, que nem fantasma. Chefia, chefia, num tô doidão não, ein, eu tô limpo.

Tive que fazer esforço e segurar uma gargalhada com aquele “picarote”. O Cara ainda me olhava. Percebi que todos ali ficaram meio desarmados.

- Não vai dar em nada - respondi, certo de que minha palavras seriam suficientes para tranquilizá-lo. Virei as costas e comecei a descer o morro.
 
 

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