Quando já deixava as Ilhas Galápagos, com a cabeça fervilhando das idéias que desembocariam na sua famosa teoria, Charles Darwin acabou cedendo aos insistentes pedidos de um dos guias do Beagle, que o convenceu a conhecer o deserto de Atacama. O homenzinho atarracado, com pele cor de cobre, não o largava com uma história que ele entendia com dificuldade, pois conhecia mal a língua espanhola e mesmo que a conhecesse bem seria dificílimo traduzir a fala daquele sujeito, mastigada e cuspida como folha de coca.
Cedeu e foi ao deserto, aborrecido, achando que se desviava de seu caminho, embora àquela altura mal soubesse qual seria seu caminho nem sonhasse com o que acabaria desbravando. Tinha, isso sim, a cabeça fervilhando de tudo que ainda não sabia o que era, o que o impossibilitou de dizer não. Assim foi, já querendo voltar. Mas não se arrependeu. Lá ele acabou por conhecer uma velha lenda, que tinha o estranho hábito de existir. La Nutria de Atacama.
No deserto, o homenzinho mastigador de palavras, Darwin e seu assistente imediato, um francês antipático com quem Darwin tinha o prazer de implicar, se instalaram numa tenda e ali ficaram por três dias e três noites. Darwin discutia com seu avô já morto sobre uma teoria absurda, numa espécie de delírio. O francesinho insistia que voltassem logo para o Beagle e seguissem viagem, em vez de estarem ali escutando lendas de um povo ignorante. E o representante do povo ignorante tartamudeava a sua verdade lendária.
Até que choveu. Um aguaceiro interminável despencou daqueles céus imensos, fazendo renascer, nos leitos mortos, rios que transbordaram tomando conta de tudo, arrastando tudo e fazendo surgir vida por todo lado, repentinamente como num milagre.
Darwin se deixou ficar em meio ao novo mar, com seu avô. E com sua caligrafia sofrível, começou a fazer anotações freneticamente, na primeira de suas 39 cadernetas, que acabaram sendo os rascunhos de seu futuro e mais famoso livro. Numa página que mais tarde ele simplesmente deixou de lado para pensar no que realmente tinha valor, podemos ler até hoje:
“... usa uma pedra para quebrar os besouros, que são a base de sua alimentação e (trecho ilegível) o uso de instrumentos. Chora, é o que todos dizem. E de fato, emite um som idêntico ao choro de uma criança, quase ininterruptamente, aguardando a água que só cai do céu de sete em sete anos, no deserto. Cai abrupta, numa (trecho ilegível) um imenso aguaceiro que tudo carrega, como se quisesse dar fim ao deserto, (trecho ilegível) ao ver que seu intuito é impossível, o deserto é o mar maior. (trecho ilegível) Nas grandes corredeiras que se formam e que acabam em horas, ali mergulham las nutrias de Atacama. Mas por passarem anos sem sequer ver água, desaprendem a nadar e se afogam quase todas. Às que sobram cabe e tarefa de salvar a espécie da extinção, numa luta que se repete por instinto de sete em sete anos. (trecho ilegível) Nadam até o mar, onde se reproduzem. E voltam pelos leitos secos dos rios até seu lugar de origem, para chorar mais sete anos.”
Darwin não chegou a observar tudo isso. A maior parte de suas observações teriam sido contadas por seu guia, o homenzinho cuspindo suas folhas de coca. Ou não, isso seria apenas mais uma das intrigas do francesinho, se vingando do inglês. E há quem afirme mesmo que Darwin nunca foi ao deserto de Atacama, tudo não passa de mais uma lenda, como a das nutrias de Atacama, espécie sobre a qual nunca mais se ouviu falar. Pelo menos no meio científico, porque um poeta, ao menos, acreditou na viagem de Darwin, em suas três noites no deserto e na existência daquela estranha espécie.
Pablo Neruda. O poeta garantia tê-las visto diversas vezes no mar, jurava que elas apareciam nas noites de inverno na Isla Negra, mostrava a alguns privilegiados o que seriam pegadas delas e até criou o “Parterre de las Nutrias”, um jardim numa das laterais do terreno da Casa de Isla Negra. Para elas compôs a “Oda a la Nutria de Atacama”, incluída no seu livro Nuevas Odas Elementales, de 1956.
“Clara como un planeta
y destinada a relucir
escamas de cristal te acrescentaron
y en el secreto de la tierra oscura
se redondeó tu vientre de rocío
y parece que el cielo contribuye
dándote fina forma de granizo
el agua
es tu bandera
agita tus colores
los rayos amarillos
los relámpagos negros
de tu cuerpo,
de piedra con espuma
es tu tecido,
el azul movimiento
de tus pies arenosos,
el encendido ramo
de tus ojos.
Tu eres el cegador
escaparate
de una sombría noche
la garganta cubierta
de aguas marinas,
entonces
yo seré tu poeta
y dormiré en tu cinta
de platino,
en la frescura azul del abanico
que abrirás en mi sueño
como las alas de una
gigantesca
mariposa marina.”
E por mais que a ciência comprove a não existência das Nutrias de Atacama, a espécie segue usando pedras para quebrar besouros e enfrentando o mar para morrer e existir nos desertos e nas poesias.