No dia 25 de agosto, o blues invade a serra de Ibitipoca, através do Ibitipoca Blues que reviverá pela nona edição o verdadeiro espírito do estilo musical. Na programação, os melhores músicos do cenário atual: Maurício Sahady e Banda, Flávio Guimarães e Banda, Blues Etílicos e Corrente Sangüínea. O festival acontece no hotel Alpha Ville (Estrada Lima Duarte - Sítio Cachoeirinha, s/n) e começa a partir das 21h. (fonte)
Medo e Delírio no Arraial
Fantasmas na encruzilhada - A história oculta do Ibitipoca Blues
Texto enviado por:
Tiago Santos-Vieira
A fantasmagórica bruma do Vale do Mississipi invade Ibitipoca. Inclemente, o gélido nevoeiro corta ossos e confunde os olhos. Muitos disseram que viram. Outros ouviram relatos e acreditaram. Uma autêntica manifestação ectoplasmática, ou mesmo, alucinações causadas pela excessiva quantidade de vinho nas veias. Bebida ideal para afugentar o frio. O bandoleiro fantasma de Robert Johnson, de olhos flamejantes e violão em punho, foi avistado por mais de uma vez pelas encruzilhadas do Arraial. Tudo no místico lugarejo confluía para o sucesso do Ibitipoca Blues.
O prelúdio do festival deu-se no Ibitilua. Uma rústica taberna em grossas madeiras, ornada no cimo pela emblemática figura do Sol copulando com a Lua. Nas "varandas" da taberna, aninhavam-se forasteiros amantes de boa música e dos encantos naturais do local. Stones, Led Zeppelin, Beatles, Elvis... A banda Corrente Sanguínea, capitaneada pelos irmãos Paulo Afonso e Fernando Henrique, vocalista e gaitista respectivamente, dispara um repertório essencialmente Rock and Roll. Pontos para o cover de Born To Be Wild (Steppenwolf). Música que despertou o "lobo" nos "selvagens motoqueiros" presentes, que venceram a empoeirada Serra de Ibitipoca com suas máquinas.
O show terminou, e com ele, o resto de energia que sustentava minhas letárgicas pálpebras. Sem disposição para mais nada, contentei-me com o conforto das camas de nosso "Q.G./redação". Uma bela e também rústica casa, bem fornida de instalações, com um estoque de DVDs em conformidade à atmosfera que pairava no Arraial. Dormi embalado por "cantigas" entoadas por Cat Stevens, Joe Cocker, Janis Joplin e Simon & Garfunkel. A caminho do "Q.G.", trespassando uma encruzilhada, escuto um estalar de cordas de aço e um ameno cantarolar. Avisto um negro vulto que desfez-se rapidamente na noite. Robert Johnson? Não! Apenas fantasmas alcoólicos, facilmente exorcizados com bons sonhos.
No segundo dia, a noite mal despontava no firmamento e já estava eu nas dependências do Hotel Alphaville, onde fora montado o palco do Ibitipoca Blues. Ostentando um instrumento destoando apenas nas cores de Lucille, lendária guitarra de B.B. King, Maurício Sahady e seus "Blues Grooves" abriram o evento. O canhoto e, sem surpresas, "BBking-ano" guitarrista, desfiou do início ao fim os clássicos do tutor de Lucille. Embasbacado, o público desmanchou-se em aplausos para uma "suingada" versão de "The Thrill is Gone".
Terminada a apresentação, abordado no backstage, Maurício Sahady divagou sobre generalidades do Blues. Quando perguntado se "Robert Johnson estava para o Blues, assim como Elvis está para o Rock", Maurício ironicamente respondeu: "Elvis era um garoto branco que também estava com o diabo no corpo". Não era o vinho e nem o cansaço. Perfeitamente sóbrio e repousado, percebi enquanto respondia seus olhos ganharem uma ameaçadora tonalidade "rubro-chamejante". Tratei de encerrar a entrevista e conclui que o sádico espírito de Robert Johnson estava a fim de me pregar uma peça.
Deixei o backstage às pressas por medo e também porque os Blues Etílicos já pisavam no palco. As ovações dos apaixonados confessos pela banda tinham como trilha sonora um instrumental introdutório, adornado pela ébria gaita de Flávio Guimarães. Em seguida o público foi bombardeado com seguidas versões para clássicos de Muddy Waters, abrigadas no disco/tributo "Viva Muddy Waters". O "Bluesman Fantasma", Robert Johnson, queria mesmo "dar as caras". De Maurício Sahady "pulou para o corpo" de Otávio Rocha. O guitarrista dos "Etílicos" distribuía sua virtuose com enfezados "slide guitars". Apesar de possuído por Johnson, a performance de Otávio, empunhando uma Gibson SG, lembrava muito Angus Yang. Só faltou mesmo o uniforme de colegial!
O batera Pedro Strasser, não parava de balançar a cabeça e descer o braço. Sua cabeleira loura cacheada dava-lhe caricatas feições, próximas de "outro branquelo com o diabo no corpo": Jerry Lee Lewis. E o que seria de uma banda de Blues sem um bom baixista. Com impecáveis marcações, Cláudio Bedran, sustentava a inventividade de seus comparsas. O grisalho "crazy dog" Greg Wilson dispensa comentários. Conduz os "Etílicos" esfolando uma surrada Stratocaster Fender e vociferando suas canções. Aproximando-se do fim, o possesso Otávio Rocha improvisa um berimbau na guitarra e coloca todo mundo para "gingar" ao som de "Dente de Ouro". "Alguns Blues depois" o show da-se por terminado, com o gaitista Flávio Guimarães jogando promessas ao vento: "Ano que vem estaremos de volta!".
Com um repertório agora adaptado para o festival, acrescido de versões para clássicos de "Blues Monsters" como Stevie Ray Vaughan, Eric Clapton e Celso Blues Boy, a banda que havia caído nas "graças do povo" na noite anterior, Corrente Sanguínea, assume o palco e fecha o evento. O cover de "Sympathy Of The Devil" (Rolling Stones) aumentou o coeficiente de poeira suspensa no ar. Os irmãos do Corrente roubaram novamente a cena, colocando todos os agudos possíveis nas vocalizações que a canção dos Stones exige. E Robert Johnson... Mandou-me um último recado! Desta vez incorporado no garoto Hugo. Com apenas 18 anos, o guitarrista da banda estava em noite inspiradíssima. Um moleque da mesma escola de Johnny Lang e Kenny Wayne. No último solo da noite, percebi em seus olhos o mesmo tom "rubro-chamejante" de Maurício Sahady.
O prelúdio do festival deu-se no Ibitilua. Uma rústica taberna em grossas madeiras, ornada no cimo pela emblemática figura do Sol copulando com a Lua. Nas "varandas" da taberna, aninhavam-se forasteiros amantes de boa música e dos encantos naturais do local. Stones, Led Zeppelin, Beatles, Elvis... A banda Corrente Sanguínea, capitaneada pelos irmãos Paulo Afonso e Fernando Henrique, vocalista e gaitista respectivamente, dispara um repertório essencialmente Rock and Roll. Pontos para o cover de Born To Be Wild (Steppenwolf). Música que despertou o "lobo" nos "selvagens motoqueiros" presentes, que venceram a empoeirada Serra de Ibitipoca com suas máquinas.
O show terminou, e com ele, o resto de energia que sustentava minhas letárgicas pálpebras. Sem disposição para mais nada, contentei-me com o conforto das camas de nosso "Q.G./redação". Uma bela e também rústica casa, bem fornida de instalações, com um estoque de DVDs em conformidade à atmosfera que pairava no Arraial. Dormi embalado por "cantigas" entoadas por Cat Stevens, Joe Cocker, Janis Joplin e Simon & Garfunkel. A caminho do "Q.G.", trespassando uma encruzilhada, escuto um estalar de cordas de aço e um ameno cantarolar. Avisto um negro vulto que desfez-se rapidamente na noite. Robert Johnson? Não! Apenas fantasmas alcoólicos, facilmente exorcizados com bons sonhos.
No segundo dia, a noite mal despontava no firmamento e já estava eu nas dependências do Hotel Alphaville, onde fora montado o palco do Ibitipoca Blues. Ostentando um instrumento destoando apenas nas cores de Lucille, lendária guitarra de B.B. King, Maurício Sahady e seus "Blues Grooves" abriram o evento. O canhoto e, sem surpresas, "BBking-ano" guitarrista, desfiou do início ao fim os clássicos do tutor de Lucille. Embasbacado, o público desmanchou-se em aplausos para uma "suingada" versão de "The Thrill is Gone".
Terminada a apresentação, abordado no backstage, Maurício Sahady divagou sobre generalidades do Blues. Quando perguntado se "Robert Johnson estava para o Blues, assim como Elvis está para o Rock", Maurício ironicamente respondeu: "Elvis era um garoto branco que também estava com o diabo no corpo". Não era o vinho e nem o cansaço. Perfeitamente sóbrio e repousado, percebi enquanto respondia seus olhos ganharem uma ameaçadora tonalidade "rubro-chamejante". Tratei de encerrar a entrevista e conclui que o sádico espírito de Robert Johnson estava a fim de me pregar uma peça.
Deixei o backstage às pressas por medo e também porque os Blues Etílicos já pisavam no palco. As ovações dos apaixonados confessos pela banda tinham como trilha sonora um instrumental introdutório, adornado pela ébria gaita de Flávio Guimarães. Em seguida o público foi bombardeado com seguidas versões para clássicos de Muddy Waters, abrigadas no disco/tributo "Viva Muddy Waters". O "Bluesman Fantasma", Robert Johnson, queria mesmo "dar as caras". De Maurício Sahady "pulou para o corpo" de Otávio Rocha. O guitarrista dos "Etílicos" distribuía sua virtuose com enfezados "slide guitars". Apesar de possuído por Johnson, a performance de Otávio, empunhando uma Gibson SG, lembrava muito Angus Yang. Só faltou mesmo o uniforme de colegial!
O batera Pedro Strasser, não parava de balançar a cabeça e descer o braço. Sua cabeleira loura cacheada dava-lhe caricatas feições, próximas de "outro branquelo com o diabo no corpo": Jerry Lee Lewis. E o que seria de uma banda de Blues sem um bom baixista. Com impecáveis marcações, Cláudio Bedran, sustentava a inventividade de seus comparsas. O grisalho "crazy dog" Greg Wilson dispensa comentários. Conduz os "Etílicos" esfolando uma surrada Stratocaster Fender e vociferando suas canções. Aproximando-se do fim, o possesso Otávio Rocha improvisa um berimbau na guitarra e coloca todo mundo para "gingar" ao som de "Dente de Ouro". "Alguns Blues depois" o show da-se por terminado, com o gaitista Flávio Guimarães jogando promessas ao vento: "Ano que vem estaremos de volta!".
Com um repertório agora adaptado para o festival, acrescido de versões para clássicos de "Blues Monsters" como Stevie Ray Vaughan, Eric Clapton e Celso Blues Boy, a banda que havia caído nas "graças do povo" na noite anterior, Corrente Sanguínea, assume o palco e fecha o evento. O cover de "Sympathy Of The Devil" (Rolling Stones) aumentou o coeficiente de poeira suspensa no ar. Os irmãos do Corrente roubaram novamente a cena, colocando todos os agudos possíveis nas vocalizações que a canção dos Stones exige. E Robert Johnson... Mandou-me um último recado! Desta vez incorporado no garoto Hugo. Com apenas 18 anos, o guitarrista da banda estava em noite inspiradíssima. Um moleque da mesma escola de Johnny Lang e Kenny Wayne. No último solo da noite, percebi em seus olhos o mesmo tom "rubro-chamejante" de Maurício Sahady.
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