para o lúcio autran
I
você tá pensando que é da alta sociedade
ou vai montar exposição de souvenir de gringo
(chico buarque – desafio do malandro)
ah senhora,
para quem de longe vê os gráficos da eficiência, os gráficos estáticos dos números da macrobiótica, dos macabros educadores da mesmice disfarçada em novidade
para quem de longe vê os televisores que se distribuem aos magotes como ação social para com isto emoldurar
as salas vazias de conteúdo, as consciências pesadas
para quem de longe a vê, senhora, em voz de mercado tão sutil, tão sutil, senhora, pensa que a noite não se pôs sob os trópicos, que os usuários da sabedoria não a reduziram à numerologia dos imbecis.
pensa que a vestem os jardins do paraíso, mas apenas floresta ou matinho suspeito são ofertados aos pupilos, como lições de torquemada, do marcatismo desabusado como quem nada teme ou deve ou paga, senhora.
ah, senhora,
a lição do poder, o ensinamento de classe são teu desiderato, a triste sina de sua claque de puxa-sacos que se fingem que se fingem de luminares das ciências, das matemáticas
e
como sofrem tais babacas!
II
eu não sei não,
eu não sei não
(chico buarque – desafio do malandro)
tantos são os produtos!
tantos os construtos
tontos os construtores
a pega vazia dos estrambotes melancólicos são o ofício a que você, senhora, se dedica, acrescenta ao vazio o vazio do vazio e dá um largo sorriso com que engana os incautos
tonta mulher
soneticícia, odeítica, baladítica, redondilhítica a dar porcos a pérolas e contratos astronômicos entre juros e jurássicos entendimentos dúbios da modernidade – triste personalidade das revistas, a inutilidade é sua paga, o seu tesouro escondido, o ouro dos tolos, o outro dos desiguais
senhora, senhora,
a venda do saber dá em consciência enlatada
em consciência entalada
e aplausos na praia de ipanema ao sol posto
aplaudem o pôr do sol como se fosse novidade e não uma mecânica usada,
por não aplaudirem este sol emoldurado pelo senso-comum,
os newtons os galileus os goyas os kants foram maiores que sua época
por não apaludirem este sol, que dizem belo,
foram vítimas de sua época
mas erigiram um monumento ao conhecimento
III
você tá fazendo piada ou vai querer que eu chore
a sua estampa eu já conheço do museu do império
ou mausoléu de cemitério, ou feira de folclore
(chico buarque – desafio do malandro)
ah senhora,
a postura da contenção abandonou seu dicionário sua prática é o desconsolo aristocrático de quando a terra não girava e o rei olhava por todos tinha servos a quem castigava ou premiava – a fortuna dependendo da palavra exata.
os poetas escreviam seus poemas a partir da cartilha real recebiam uns os louros outros como aretino, bocage ou rabelais o vitupério se aqueles estão nos museus do império estes fazem rir as pessoas liberam seus humores unem como oswald o amor ao humor e com isso afirmam a vida denegam a morte e a imperativa vontade dos monarcas
amam as mulatas e não apenas as toleram
amam o sexo e não o escondem entre as paredes da casa
sob a permissão do mercado – nosso rei reposto
preferem as casas carcomidas aos palácios
preferem as dificuldades do dia a dia ao enquistado medo de perder seus privilégios
preferem a ingenuidade ao engodo dos que com perfídia ficam à sombra do poder
enquanto – por desfaçatez ou ignorância – ofertam à camarilha feira e folclore e a sempre bem-vinda nação das promessas do futuro ou o que o valha. por isso riem de longe, quando trocam migalhas os que de fora fazem força para agradá-los.
são os verdadeiros canalhas os que de fora gracejam - os que de dentro gargalham - que entre eles a gargalhada é sintoma da dor
os poetas escrevem seus poemas – uns optam pelo mercado
outros pela língua nua a desabusada língua de que se orgulham a desgramática
dos poetas reinventados pela audácia
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